Comércio e história inacabada do quiosque vermelho
Existe há anos um encerrado quiosque vermelho na praça Montevideu. Caduco, teve o seu auge nos anos sessenta, quando as principais editoras nacionais começaram a debitar literatura diária à razão de dez por dia.
Tudo era publicável nesses anos de ávida vontade de ler e nessa cidade pretensiosa que agora despertava para a viagem solitária de sofá e em que se lançavam grandes escritores e fracassados incompreendidos.
No quiosque da praça reuniam-se em bancas de dois por dois, as novidades livrescas do dia acabadas de chegar do forno tipográfico.
Anos depois, revisitando o seu descascado quiosque vermelho, Egídio lembra o mítico dia 5 de junho de 67 em que lançara o mais retumbante êxito de vendas. Nesta fria manhã de dezembro, em que o varandim entaipado impede a passagem, Egídio é uma sombra vil do tentador de comércio que outrora convencia qualquer pelintra a esbanjar vinte centavos pela mais recente obra de Lucifer, “uma primeira edição de uma obra que valerá fortunas”.
Nesse fantástico dia de vendas mal chegaram os 50 exemplares da obra que “venderia como ginjas”, logo esgotaram, tendo satisfeito os retardatários com outras obras “de igual ou superior valor e cujo investimento irá ser um dia recompensado”. Desta chusma de livralhada cinzentona fazia parte a obra de Samsa, “Dias assim são para sempre”.
Os 5 exemplares alguma vez vendidos da obra havia sido Egídio a despachá-las, pelo que, nesse gélido alvorecer invernal, já amplamente confirmado o fracasso da obra, Samsa haveria de cumprimentar com vigor a mão de quem lhe tinha dado certo reconforto de eternidade.
Samsa era, com efeito, escritor de um belo calhamaço falhado. Calvo, de trunfas laterais, sobrevivia de biscates de carpintaria que lhe ia aparecendo. Dos seus lábios curtos e cerrados saiam-lhe parcas palavras de chofre, dando-lhe certo ar lunático assustador de gentes e que lhe havia impedido qualquer companhia nas primaveras da vida. Não que fosse esquisito com género, etnia ou formato, mas porque, na realidade, as oportunidades não abundavam. Talvez por isso se recalcassem desejos e pensamentos plasmados no seu tom monocórdico, seco, rudimentar de trato e de vontade.
Metódico e persistente como era, havia retratado, num longo diário de mil volumes, a sua placidez infantil e o seu cinismo adulto, que logo resumiu em trezentas páginas medianas, para publicação. Após várias tentativas de o editar e igual número de rechaços, tanto pela “precaridade linguística” quanto pela “incapacidade de pensamento”, um suficiente elogio de um novato editor havia aberto a porta de imprimir, finalmente, o seu belo cartapácio de folhas.
Na realidade, beneficiou Samsa de uma súbita falta de inspiração universal dos consagrados que o catapultou para a resma de manuscritos da caixa VIÁVEIS, depois de um rastreio mais apurado da arrecadação de fracassos rotulados.
Foi então com grande entusiasmo que viveu esses dias de provas, fotolitos e monos que precederam a ambiciosa edição de 500 exemplares.
No domingo do lançamento, 4 de junho, apesar de não convidar ninguém para o evento, arremessou, inocente, o seu exemplar com todas as suas forças, pensando que quanto mais longe fosse, maior seria o seu sucesso, numa complexa perceção mística dos atos e suas repercussões.
Triste sorte a de Samsa, pois no mesmo dia haverá de sair o mais retumbante romance consagrado que escapadou à baforada melosa dos ventos da apatia, anunciando a opressão das suas fluentes páginas.
No balanço de final do primeiro dia, barómetro da rapidez de escoamento das obras editadas, 5 únicos exemplares haviam sido vendidos, logo rotulando-se o livro como FRACASSO, recolhendo-se à editora e logo ali incinerando-se 494 cópias pela invisibilidade da capa e 1.325 papéis de burocracia regimental, justificada pela intransigência da escrita, pela inércia do autor e pela cobertura de custos extraordinários que já se havia extorquido do autor.
Assim, após anos de insana busca pelo herói vendedor, com o “quiosque vermelho” como única referência, encontrou, Samsa, o seu querido Elígio, numa teia de alusões que o levou ao já decrépito pavilhão carmino da praça Montevideu na recôndita cidade fronteiriça de Concordía.
Recordariam, ambos, naquele rossio mal-amado, numa eterna conversa desmedida, os anos de sucessos e fracassos, tanto do vendedor de coisas e vontades, quanto do compilador de causas próprias.
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