5.11.2012

Comércio e história inacabada do quiosque vermelho

Existe há anos um encerrado quiosque vermelho na praça Montevideu. Caduco, teve o seu auge nos anos sessenta, quando as principais editoras nacionais começaram a debitar literatura diária à razão de dez por dia.

Tudo era publicável nesses anos de ávida vontade de ler e nessa cidade pretensiosa que agora despertava para a viagem solitária de sofá e em que se lançavam grandes escritores e fracassados incompreendidos.

No quiosque da praça reuniam-se em bancas de dois por dois, as novidades livrescas do dia acabadas de chegar do forno tipográfico.

Anos depois, revisitando o seu descascado quiosque vermelho, Egídio lembra o mítico dia 5 de junho de 67 em que lançara o mais retumbante êxito de vendas. Nesta fria manhã de dezembro, em que o varandim entaipado impede a passagem, Egídio é uma sombra vil do tentador de comércio que outrora convencia qualquer pelintra a esbanjar vinte centavos pela mais recente obra de Lucifer, “uma primeira edição de uma obra que valerá fortunas”.

Nesse fantástico dia de vendas mal chegaram os 50 exemplares da obra que “venderia como ginjas”, logo esgotaram, tendo satisfeito os retardatários com outras obras “de igual ou superior valor e cujo investimento irá ser um dia recompensado”. Desta chusma de livralhada cinzentona fazia parte a obra de Samsa, “Dias assim são para sempre”.

Os 5 exemplares alguma vez vendidos da obra havia sido Egídio a despachá-las, pelo que, nesse gélido alvorecer invernal, já amplamente confirmado o fracasso da obra, Samsa haveria de cumprimentar com vigor a mão de quem lhe tinha dado certo reconforto de eternidade.

Samsa era, com efeito, escritor de um belo calhamaço falhado. Calvo, de trunfas laterais, sobrevivia de biscates de carpintaria que lhe ia aparecendo. Dos seus lábios curtos e cerrados saiam-lhe parcas palavras de chofre, dando-lhe certo ar lunático assustador de gentes e que lhe havia impedido qualquer companhia nas primaveras da vida. Não que fosse esquisito com género, etnia ou formato, mas porque, na realidade, as oportunidades não abundavam. Talvez por isso se recalcassem desejos e pensamentos plasmados no seu tom monocórdico, seco, rudimentar de trato e de vontade.

Metódico e persistente como era, havia retratado, num longo diário de mil volumes, a sua placidez infantil e o seu cinismo adulto, que logo resumiu em trezentas páginas medianas, para publicação. Após várias tentativas de o editar e igual número de rechaços, tanto pela “precaridade linguística” quanto pela “incapacidade de pensamento”, um suficiente elogio de um novato editor havia aberto a porta de imprimir, finalmente, o seu belo cartapácio de folhas.

Na realidade, beneficiou Samsa de uma súbita falta de inspiração universal dos consagrados que o catapultou para a resma de manuscritos da caixa VIÁVEIS, depois de um rastreio mais apurado da arrecadação de fracassos rotulados.

Foi então com grande entusiasmo que viveu esses dias de provas, fotolitos e monos que precederam a ambiciosa edição de 500 exemplares.

No domingo do lançamento, 4 de junho, apesar de não convidar ninguém para o evento, arremessou, inocente, o seu exemplar com todas as suas forças, pensando que quanto mais longe fosse, maior seria o seu sucesso, numa complexa perceção mística dos atos e suas repercussões.

Triste sorte a de Samsa, pois no mesmo dia haverá de sair o mais retumbante romance consagrado que escapadou à baforada melosa dos ventos da apatia, anunciando a opressão das suas fluentes páginas.

No balanço de final do primeiro dia, barómetro da rapidez de escoamento das obras editadas, 5 únicos exemplares haviam sido vendidos, logo rotulando-se o livro como FRACASSO, recolhendo-se à editora e logo ali incinerando-se 494 cópias pela invisibilidade da capa e 1.325 papéis de burocracia regimental, justificada pela intransigência da escrita, pela inércia do autor e pela cobertura de custos extraordinários que já se havia extorquido do autor.

Assim, após anos de insana busca pelo herói vendedor, com o “quiosque vermelho” como única referência, encontrou, Samsa, o seu querido Elígio, numa teia de alusões que o levou ao já decrépito pavilhão carmino da praça Montevideu na recôndita cidade fronteiriça de Concordía.

Recordariam, ambos, naquele rossio mal-amado, numa eterna conversa desmedida, os anos de sucessos e fracassos, tanto do vendedor de coisas e vontades, quanto do compilador de causas próprias.

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4.24.2012

se hace camino al andar

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

in António Machado, Canto XXIX
dos Provérbios e Canções dos Campos de Costela (1917)

4.09.2012

percebologia ou a boa arte de opinar

De percebologia, percebemos todos!

Veio-me há uns dias à memória, quando passava os olhos pela entrevista à Secretária de Estado do Turismo na revista Marketeer de março.

O eriçamento das minhas barbas trintãs atingiu o clímax na leitura do seu vasto currículo, reflectindo um político de profissão que vive na sombra do seu partido.

Não que o seu passado (e presente) seja definidor de uma veia profissional incapaz, mas por reflectir um contexto pouco dirigido e em que o que vale são os meandros retóricos partidários em que se navega e não as qualificações específicas para o cargo que se exerce.

Percebóloga, terá uma ideia preconcebida da área, mandará umas postas mais ou menos acertadas e muitas outras à água.

Mas, não somos todos percebólogos de profissão? É que todos opinamos sobre qualquer assunto como se o estudássemos a fundo, quer seja sobre bola, sobre política, sobre o que devia ser feito para o bem do país, enfim, sobre TUDO, baseado no que o outro disse, tornando-o nosso.

Os exemplos são imensos, desde os paineleiros de programas televisivos que encontram a verdade num qualquer trejeito de uma figura pública, passando pelo mister que tudo sabe sobre a equipa adversária, até ao bebedor de café que debita o que acabou de ler nas gordas de um qualquer pasquim.

Sem dúvida que todos têm direito à opinião, mas como dizia o uncle Ben: "with a great power comes a great responsibility".

De facto, acho que o direito à opinião é um poder pessoal grande demais para ser desperdiçado em bocas do barulho pouco esclarecidas e deveria haver um interesse pessoal mais generalizado em cada um cumprir o seu dever de se esclarecer antes de opinar.

É que isso de saber de tudo e sair verborreia, isso de se gerir o que não se conhece ou de negar a incapacidade para saber tudo sobre tudo, em suma, isso de ser percebólogo da treta, irrita-me comó caraças!

Mas isso é para mim que percebo das coisas.

2.27.2012

blogs e tralha

Na sociedade de consumo imediato, ninguém fica de fora. Twitter, facebook, google + sustentam-se, e bem, na mensagem rápida e fácil de consumir.

O quioske tem já alguns anos e por isso já passei pelo boom de acessos, pela análise da concorrência, pelo limiar dos 1.000, 2.000, 5.000.

O tempo molda-nos e, por isso, moldamos o que fazemos e como o fazemos.

Hoje este é um espaço sem premissas temáticas, de espaço, de ligações. É um diário / semanário do que me vai apetecendo escrever.

Isso é bom, torna o que escrevemos mais autêntico, mas íntimo, menos avesso aos comentários ou à necessidade de responder a temas quentes.

Talvez seja um caminho partilhado por tantos outros, como se a grande rede que nos une fosse também a grande rede que nos caracteriza.

Disse-me ontem um camarada dos velhos que em janeiro e fevereiro a venda de tabaco decresce muito pelas promessas de um ano novo livre do vício. É como se um pensamento coletivo nos caracterizasse a todos. Por caminhos diferentes fui embocar nessa magistral definição (acho que é de Eduardo Lourenço) de humanidade: uma replicação infinita de caminhos comuns, cruzados por vontades similares.

Neste contexto coletivista (sim, sou dos subscritores do acordo ortográfico, talvez em contraponto aos intelectualóides charolos como o pulidinho) o movimento bloguista tem perdido defensores, escritores, comentarista, percebólogos que agora viram baterias para outras plataformas.

Tornou-se mais intimista, mas também mais autêntico (apesar dos treinadores de bancada que de tudo postam), mais nosso, mais meu.

Menos arranjadinho, é certo, mas não somos todos menos bonitos um pouco do que a ideia do que somos, é?

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2.21.2012

e mais nada...

"Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados"
Miguel Torga

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1.31.2012

bastardia

Com o passar dos anos tendemos a perder o brilho idealista que nos foi moldando o pensamento e dando corpo aos nossos atos, tornando-nos secos, imutáveis, perfeitos bastardos entre irmãos.
Ouvi esta frase, nestas e outras palavras, muitas vezes. Ouvia-a recorrente pela voz de experientes e bem sucedidos cordeirinhos que, disfarçados no rebanho, foram-lhe toldando o passo conduzindo-o pelo seu caminho mais seguro.
Nunca soube bem como designar essa veia normalizadora e segura que todos querem, nem como caracterizar sequer essa necessidade insana de nos vermos sentados no sofá e ver uma merda qualquer na TV à espera que a vida passe.
Também nunca soube, até hoje, como chamar a essa massa que compõe a opinião pública, feita de ideias preconcebidas, frases fáceis e com vontade de apontar o dedo para logo esquecer, mal novo escândalo o chame à atenção.
Costumava chamar-lhe o país de merda. Hoje, sei que não é assim.
Sei agora que a isso chamarei: a bastardia humana.
São bastardos bronzeados e de cabelo armado. São bastardos entendidos em faladura especulativa, sem fundamento, sempre com base nos que outros disseram. São bastardos os que o dizem, os que o comentam, os que o ouvem e os que o transmitem.
É bastarda a mensagem, o emissor e o receptor.
Sou bastardo, mas tu que o lês também. Não sorrias, estou a falar mesmo de ti.

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1.20.2012