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12.19.2015

Afonso III, o bolonhês


Freitas do Amaral, autor seminal na área do direito português, tem-se dedicado à autoria de escritos de divulgação relacionados com a história da nacionalidade.

Depois do sucesso retumbante de Afonso Henriques - Biografia, de 2001, com mais de 80 mil exemplares vendidos e de Viriato em 2003, lança agora novo livro sobre a personagem controversa de Afonso III (1212-1279), editado pela Bertrand editora.

De escrita leve e corrida, relata a vida do que o autor define como "um grande homem de estado" nas décadas conturbadas do início da nacionalidade (séc. XIII), num país débil e periférico encravado entre o Gharb Al-Andalus, a sul, e os reinos de Leão e Castela a norte e este.

Sem pretender ser um trabalho de investigação, é um excelente livro de divulgação apoiado em bibliografia específica sobre o tema. Apesar de alguns comentários algo anacrónicos, apresenta a sua visão sobre esta personagem ímpar para a criação e consolidação do Estado em Portugal e para a organização administrativa e legislativa das quais prevalecem, ainda hoje, reminiscências.

Apresenta, ainda, algumas considerações pertinentes sobre factos históricos, fruto da sua larga experiência nas áreas políticas e legais, acrescentando, por isso, valor a uma obra que poderia ter sido de mero relato a partir de fontes secundárias.

Lança, por fim, apesar de não o referir expressamente, algumas questões interessantes a aprofundar, nomeadamente, quanto aos acasos que o tornaram rei, por morte do irmão Sancho II, que legitimaram a sua sucessão, por morte da primeira mulher (Matilde II, condessa de Bolonha), e que permitiram iniciar o processo de apaziguamento das relações do reino com o papado, por eleição do Papa português João XXI, cujo processo viria a ser interrompido por morte deste.

Será, por isso, interessante averiguar o posicionamento e ação de Afonso III em Roma e Paris, por intermédio dos seus adidos diplomáticos, na eleição de Pedro Hispano, amigo pessoal (e confessor) de Afonso III, cuja aclamação para pontífice permitiu empreender os primeiros passos para o desbloqueio das difíceis relações da coroa com Roma, motivado pelas ações de reafetação de territórios, que haviam sido ocupados pelo clero, à coroa.

Um livro interessante baseado em bibliografia portuguesa - com forte sustentação na biografia de Afonso III da autoria de Leontina Ventura e na História de Portugal de Alexandre Hereculano - que vale a pena ler.

4.28.2015

Há livros que são


Há livros que são, na realidade, um folguedo. Hemingway, em obra publicada a título póstumo, comprova-o.
Havia já largos anos que não tocava na sua obra por ter terminado, precoce, a minha incursão na larga série “livros do brasil” e na monumental “coleção vampiro” que meu avô compilava, religiosamente, na prateleira da sala e que eu catalogara com o carinhoso epíteto de “a libralhada belha”. Os livros de Hem serviriam, então, de tira-gosto entre Maigretes e Poirotes, tendo-me levado por outros caminhos para lá dos policiais.
Passaram-se, pois, mais de 20 anos desde a última vez e, por isso, havia guardado a genialidade simples da sua obra no fundo do meu emperrado contador da memória.
Em “Paris é uma festa” a genialidade da narrativa séria, justa e escorreita, a descrição viva de formas e sentidos, a prosa simples e sadia, a descrição autobiográfica – quase voyeurista – fervilha em cada página, revestindo-as de uma intensidade que vale a pena desfolhar, de tão maduras que estão.
Numa narrativa corrente e lesta, relembra os anos entre guerras, descrevendo o dia-a-dia numa cidade viável que não nos é permitido conhecer. Uma cidade em que a pobreza e o sonho não esbarravam contra a dignidade, em que gente comum convive miscigenando, na carência de meios, os heróis do quotidiano, os sobreviventes de uma Europa que se erguia da ruína e que, ironia, caminharia, de novo, para o abismo.
Não só da escrita fluente e realista vive a obra. Estratégicas passagens, de uma simplicidade impressionante, imprimem-lhe a força necessária para continuar. São, na verdade, farpas sonoras de amigo afoito empestando o ar e, teimando em permanecer, lembrando que nem só de som se faz a bufa. É flatulência, de facto, mas de uma que não assiste a todos, é de uma amena e purificada delicadeza, enfim, daquela que cheira ao regaço da rainha santa isabel.

1.02.2014

Contos de Morte

Está-se a tornar um caso sério a obra de Pepetela. Depois da "A Sul, o Sombreiro" li, há dias, a brilhante seleção de contos organizada pelas Edições Nelson de Matos.
"Contos de Morte" é uma coletânea de contos invulgares dispersos em diferentes locais e épocas, onde se sentem vapores de uma escrita preocupada pelas clivagens sociais por que Angola tem passado nas últimas décadas.
Destaco o pasmo que são os contos "Estranhos Pássaros" e "O Caixão do Molhado", com cadências diferentes mas cheias de intenção e forma invejável. Na realidade, a estruturação base de uma qualquer obra de arte.


12.23.2013

A Filha do Papa

O livro A Filha do Papa é um dos romances históricos mais coerentes e viciantes que tenho lido nos últimos tempos. Com base em factos e mitos, Luís Miguel Rocha cria um enredo policial que prende o leitor até à última página.
Luís Miguel Rocha, é, acima de tudo, um estratega da escrita, lançando fagulhas para a leitura do seu anterior livro "O Último Papa" (que ainda não li mas que não irei, de certo, perder) e deixando o leitor estasiado com a articulação das personagens, com o rigor da história que se vai revelando sem pressas, com a deliciosa relação que vamos criando com as personagens.
Na onda tão em voga de romances históricos, à qual tenho dedicado alguma atenção, está a anos luz de autores como José Rodrigues dos Santos ou Domingos Amaral. Na verdade, no constrangedor livro "A Mão do Diabo", José Rodrigues dos Santos ensaia, de forma algo interessante, sobre as motivações da crise, escrevinhando, contudo, um romance francamente débil, roçando o caricato, que me levou a, de alguma forma, rotular o género.
Erro tremendo meu, do qual me penitenciarei com chicotadas no lombo.
Depois de Amin Maalouf ou de Mário de Carvalho, Luís Miguel Rocha é uma lufada de ar fresco neste mercado tão competitivo da luta por espaço de prateleira natalícia.
Obra a toda a prova, faz jus ao rótulo de best seller que tem.
Apenas um reparo. A capa é beática de mais, merecia um frontispício mais memorável. Percebe-se que o editor tentou chamar à compra públicos diversos, não o censuro. Mas como leitor, parece-me religiosice a mais...
Na forma, um autêntico Castle português.

12.06.2013

O remorso de baltazar serapião


desumanização, título do novo livro de valter hugo mãe é a palavra que melhor define a brutalidade que reveste o livro "o remorso de baltazar serapião". com uma cadência metódica de horror humano, circunda em torno da história dos sargas, principalmente de baltazar, e sarga, a vaca.
é um livro sobre a usurpação da dignidade humana, consentida por todos e avalizada pelos pares, numa qualquer aldeia recôndita do portugal de outrora.
ao folheá-lo, não deixei de me lembrar das diatribes filosóficas sobre o papel demoníaco da mulher que um qualquer frade relata em "o nome da rosa".
mulher. mulher pecaminosa, embruxada, é aqui usada (não abusada, pois o conceito é desconhecido), num romance que em tudo se alinha com a verdade de um país, assim há não muito tempo.
um livro que leva ao trejeito, normalmente de escárnio ou de horror, com algum humor negro à mistura. as páginas passam velozes à cata de um remorso redentor final que, insuspeito, é revelado ao jeito de macondo moribundo.
num estilo rigoroso ao som do marca-passo, é um livro que retrata o caminho penoso da mulher, pré emancipação, requerendo concentração e necessitando, de vez em quando, de releitura.
li a edição quidnovi. bela leitura, com paginação densa mas legível. capa engraçada, mas que pouco diz sobre o livro.
 

11.29.2013

A Sul. O sombreiro

 
Li já há algum tempo um livro delicioso. O primeiro livro de autor africano que começo e termino. Excluo Camus, mais ao gosto da triologia europeia da altura: Fome/Guerra/Miséria e sem esse sabor africano e Agualusa, com imaginário autóctone muito engraçado, mas escrita mais ocidentalizada.
"A Sul. O sombreiro" é uma monografia dos primeiros anos de Angola, vista pelos olhos da populaça embrutecida que o povoava, à semelhança dos que por cá sobreviviam, entre governadores "filhos da puta" e colonizadores de seiscentos e setecentos.
O livro, de uma coerência da escrita sem mácula, usa termos africanos (sempre deixando, pela sonoridade, perceber a coisa dita) com os que por cá são conhecidos. Pontuação pouco clássica, mas de uma agilidade de discurso notável.
Miolo muito bem paginado e com revisão sem nada a apontar, apresenta uma capa arriscada que contempla referência, mapa e imagética, com coloração diversa, mas que resulta muito bem.
Depois de tentar leituras diversas africanas, de Mwangi a Mia Couto, sempre sem grande sucesso, Pepetela abre-me as portas da literatura africana, cheia de sonoridades e de sentidos bem vivos, tal como havia sentido no primeiro livro de contos africanos infantis que em criança minha mãe me lia, entre uma moralidade pouco ocidental e histórias de cabaças mágicas, crocodilos falantes, pássaros com língua própria e outros.
Pepetela acaba de lançar novo livro natalício sobre o qual ainda não passei os olhos, mas se for da qualidade deste, vai muito bem a língua portuguesa.

11.01.2013

O Cartógrafo do Infante

Tempos longos, estes de paragem na escrita, que muito deverá ter agradado aos olhos imensos que por aqui foram passando.
Entretanto, alguns livros foram passando-me pela frente, na longa viagem amarela entre Gaia e Porto. Retomo aqui as notas de livros que foram tocando, para o bem e para o mal:
"O cartógrafo do infante", obra dos anos 60 de Frank Slaughter reeditada pela Esfera dos Livros.
Romance histórico que retrata a fase inicial dos descobrimentos portugueses entre finais de trezentos e início de quatrocentos e que se baseia na vida de El-Hakim, escravo veneziano que, entre histórias várias, chega à corte do infante D. Henrique para o ajudar na arte de marear.
Livro muito interessante com retrato de época vivo e bem construído e que dá respostas a algumas dúvidas históricas quanto aos motivos para a criação do posto avançado de Sagres.
Final clássico, nada mau, mas não fantástico.

8.13.2013

Um enjoativo e magnífico livro


Depois deste interregno de vários meses, não por falta de tempo (como alguns sempre defendem) mas por falta de vontade (mais vale a verdade do que um nariz comprido), sugiro um livro que resultou de um trabalho magnífico de Gustavo Sampaio: Os Privilegiados, uma edição de A Esfera dos Livros lançado em julho de 2013.
A partir de um trabalho verdadeiramente notável de pesquisa, Gustavo Sampaio faz uma súmula de "como os políticos e ex-políticos gerem interesses, movem influências e beneficiam de direitos adquiridos".
Enjoativo porque, página após página, relata-nos resultados de uma análise profunda dos meandros de potenciais incompatibilidades entre o interesse público e privado de deputados, autarcas, afiliados e outros coladores de cartazes. De revoltar o estômago dos mais resistentes.
É avassalador a quantidade de dúvidas que assolam o leitor à medida que vai folheando (ou desfolhando) "Os Privilegiados".
"Os políticos são todos iguais!" cita o autor, no início do livro, para logo rotular esse já ditado popular de "falácia circular que condiciona o pensamento e bloqueia a conversação". Não podia concordar mais.
Contudo, depois de terminar este interessante livro, tendo a verborreá-lo, Gustavo.
É que trabalhos de consultoria por deputados em empresas cuja área de negócio é sensível à comissão parlamentar em que esse mesmo deputado exerce funções (não devo ter sido muito claro, mas o autor é); aumentos excessivos de contratos públicos por ajuste direto, consoante o governo em funções; listas intermináveis de ex-políticos membros de órgãos sociais das principais empresas cotadas no PSI 20; subvencivos (ex-deputados) ad aeternum (paradigmático o exercício exemplar de funções do Relvas [sim, também aparece por cá, não raras vezes]); centenas de autarcas reformados embora em exercício de funções; um Presidente que se diz incapaz de fazer face às despesas com uma reforma de 1.300€, recebendo, de facto 10.000€ (por mês); acumulações de vencimentos e reformas no Governo Regional da Madeira; os mais de 5.000€ que cada deputado, de facto, aufere (em despesas de representação, ajudas de custo e mais outras ajudas para fazer cenas); os aumentos de 81 euros mensais no rendimento dos políticos (sim, quando se introduziram cortes nos subsídios de férias e de natal); a contratação de boys sem a mínima experiência na área para vogais, presidentes e outros cargos; a contratação de dois miúdos de 21 e 22 anos respetivamente para as funções de técnicos especialistas para acompanhamento das medidas do memorando da troika (ambos com única experiência profissional 1 estágio de 6 meses/cada); entre muitas, muitas outras, não poderei de citar a sábia vox populi (hoje estou muito pró-latim) "os políticos são todos iguais!".
Há uns mais iguais do que outros, claro, mas porra, é uma corja dum camandro!

5.06.2013

A Tábua de Flandres


Obra viciante de Arturo Pérez-Reverte. Já me tinham avisado que era um valor seguro. Percebo agora porquê.
Policial de primeira que apetece continuar, bem estruturado e envolto em mistério. A narrativa enreda-se em torno de uma obra de Van Huys, primitivo flamengo de quinhentos e os seus intérpretes, em novecentos. A história desenrola-se numa trama de crime e a arte que vai fluindo por intermédio de um misterioso jogo de xadrez, a lembrar Nabokov. Primoroso na rede sempre cativante que cria, com final improvável, de qualidade, sem fronteiras definidas entre o bom e o vilão. Delicioso.

3.25.2013

crítica da razão ausente

Acabo de passar os olhos pelo "Crítica da razão ausente" de António Manuel Baptista (AMB). Um livro de 2002 na continuidade da guerra aberta a Boaventura Sousa Santos (BSS). Há altura designada por guerra da ciência, é uma obra divertida de ler por ser uma crítica a BSS no seu "Um discurso sobre as ciências". Na crítica algo feroz ao entendimento que BSS faz de ciência, parece-me mais um manifesto contra a politização do discurso científico (apesar do próprio AMB ser acusado disso mesmo, numa ótica do toma-lá-com-o-que-me-acusas-para-ver-se-gostas).
Tal como no jornalismo em que o discurso é deturpado com objetivos algo dissimulados, também na obra de BSS AMB vê motivações obscuras para a sua produção. Carlos Magno, Prado Coelho, Vasco Graça Moura, são alguns exemplos ao estilo BSS que, ainda que noutras áreas, vão impregnando o leitor de termos complexos e algo dúbios, cheios de salamaleques, para irem cravando ora o cravo (claro) ora a ferradura.
Ainda que com provas dadas, é particularmente irritante essa vontade constante de criticar, para logo agradar, mantendo-se nas boas graças do rotativismo vigente.
Lembro-me, de facto, quando estudava, de ouvir falar do livro de BSS, sempre num tom algo seminal, mas, pela densidade das citações e da terminologia arrevesada, nunca passei da capa. Hoje, passei os olhos sobre o seu pequeno livro. Aliás, acho que é o mais curto calhamaço que li...
Na altura, talvez o reduzido tamanho do livro de BSS tenha-me chamado à atenção. Hoje, ensonou-me.
Interessam-me as questões do comportamento da ciência, das redes de criação científica, da forma como se mapeia o conhecimento, mas, por favor, não me chamem para teorizações do estilo todo-o-conhecimento-científico-natural-é-científico-social ou todo-o-conhecimento-é-auto-conhecimento.
Sinceramente, deixa-me com muito sono. Já o seu contrário, a crítica cáustica, essa é sempre bem-vinda.

1.25.2013

A casa de papel

Movendo-se no universo de A Biblioteca de Babel e do Cemitério dos livros esquecidos, o pequeno livro, entre o romance e o conto, de Carlos María Dominguez, é delicioso.
Com enredo muito interessante, desenvolve-se em torno de um esquecido, viajado e cimentado livro.
Deixa perceber uma técnica algo erudita, mesclada com o toque sensual do castelhano sul-americano.
Receita:
Servir Casa de Papel com clericot.

1.10.2013

um deus passeando pela brisa da tarde

Ainda com a nostalgia que os bons livros nos deixam, mal os terminamos e, por isso, com a história à flor da pele, não posso deixar em claro a agilidade com que foi escrito e a clareza do enredo, fundamentado nos primórdios do paleocristianismo no contexto da lusitânia romanizada de finais de ocupação.
É um livro delicioso que justifica a quantidades de reedições já impressas (tenho notícia de pelo menos 12).
Ladeado entre os ritos da vida privada e o direito romano, descreve magistralmente o quotidiano e a estratificação social clássica, deixando antever os primeiros passos de uma seita que, séculos depois, se tornará dominante.
Romance histórico muito bem escrito em estilo autobiográfico (do dúunviro Lúcio Valério). A aparente desilusão de, na abertura, referir que "nunca existiu", dificulta a leitura dos primeiros parágrafos, que logo é secundada pela impressionante articulação das várias componentes da história.
Mário de Carvalho mostra como, a partir de uma boa fundamentação do contexto e com escrita clara e liminar, pode ser tão gratificante a leitura.
Uma composição da editora Caminho que, como já me havia habituado, não prima pela excelência do design, mas pela qualidade da escolha editorial.

1.02.2013

e mais coisas de ler

Ao contrário da capa da mini-série de Joaquim Leitão, a encadernação do "Até amanhã, camaradas" é algo insipida, bem diferente do miolo cativante que reveste.

Do editorial Avante, que sempre nos chama para o vermelho vivo doutrinal, apresenta composição gráfica de uma sobriedade tocante dando, até, certo corpo ao enredo que num fôlego se folheia.

É um livro austero. Sem querer ser um instrumento de propaganda, não deixa de a fazer, numa ambiência de permanente conluio anti-fascista que nos trouxe até aqui.

Aprecie-se, por entre a trama inquietante dos homens sem nome, tanto as descrições da sociabilidade rural e simples da populaça, quanto os apontamentos místicos que envolvem as personagens revolucionárias.

Para quem, como eu, não viveu esse tempo, fica um retrato muito interessante do país que me gerou, não só pobre e comezinho, mas também lutador diário, ora por batatas, ora por ideais.

12.18.2012

outras coisas, boas, de ler

O Corvo da Relógio d'Água é uma obra magistral.
Não que seja um aficionado da poesia, longe disso, mas pela qualidade do génio criativo de uma obra a três vozes, em torno desta obra de Nevermore de Poe.
É genial a edição tanto no toque, quanto na paginação, no design, na imagética, na composição de interpretações (não consigo usar o termo tradução) de Fernando Pessoa e Machado de Assis e na opção de incluir Anabel Lee (versão original e interpretação de Fernando Pessoa) como adenda final, encorpando o livro. 
Percebeu o editor que o comprador é sensível ao tamanho da lombada e por isso os cerca de 12,00 € são uma pechincha para quem está habituado a comprar cenas-duvidosas menores por bem mais alto preço.
Qualidade editorial notável que dá ao texto uma roupagem merecida.
Obrigatório!

8.21.2012

coisas perturbadoras de ler

Perturbador. Foi a palavra que encontrei para descrever "Jerusalém" de Gonçalo M. Tavares.
Numa escrita tipicamente europeia, algo cinzenta, quase preta, é um livro delicioso, de um rigor científico tanto na complexa rede de relações entre as personagens, quanto no enredo que se vai revelando ao longo da(s) história(s).
A edição é da Caminho que, no entanto, não faz jus à qualidade do conteúdo. Nota-se laxismo na composição, demonstrada tanto na rudeza do desenho, quanto no relaxe da paginação. De facto percebe-se alguma incompreensão por parte do editor em encontrar o melhor empacotamento para uma obra de grande carácter.
Se o conceito “livros pretos” é perfeito, a forma como o livro (o embrulho, não o conteúdo) é construído, é rudimentar, incomparável com composições como de “O Corvo” (sobre o qual postarei em breve) da Relógio d´Água ou como os volumes da coleção Clássicos da Cotovia.
A sua sucessiva reedição sustenta-se, quanto a mim , numa força de vendas maior, a da qualidade da escrita e da pujança do enredo.

Obrigatório passar os olhos.

8.17.2012

coisas de ler

"Recomendo-o sem qualquer tipo de reserva" lê-se em blogs e comentários de quem, como o quioske, rumina literatura de vez em quando.
O livro "Quando Lisboa Tremeu" de Domingos Amaral é bom exemplo de leitura de Verão, despreocupada. Porém, não me convence.
Não que eu tenha os pruridos intelectuais de uma decadente elite literária portuguesa. Nem que considere o romance histórico uma novela barata da TVI. Na realidade gosto muito do género e, quando com qualidade, é uma excelente forma de exercitar o desprendimento temporal e de contexto.
De facto, o livro apresenta bom enredo, boa articulação das personagens e uma envolvência algo aliciante de desespero, morte e sexo, sempre ao bom gosto "sangue, pão e circo" de que todos gostam.
A obra em torno do terramoto de Lisboa de 1755 e dos dias que o sucederam é uma obra algo interessante, com um final razoavelmente bom, mas, quanto a mim, mal construído.
Na realidade, apresenta-se repetitivo (talhava-lhe 5 ou 6 cadernos) na catadupa de eventos em torno de dois fugitivos do Limoeiro, de um rapaz órfão e de uma freira algo devassa condenada à fogueira. Apresenta alguns factos secundários interessantes, caracterizadores da época, mas a circularidade da ligação entre personagens, a limitação do espaço (a cidade de Lisboa) e a continuada repetição das descrições, tornam o livro maçador, como se estivéssemos a ler o mesmo vezes sem conta.
O final, relativamente inesperado, apesar de clássico, difere-o de romances históricos francamente fracos que já comentamos (p.e. A Estratégia do Bobo), mas não deixa de ser exagerada a reiterada repetição, como se, à falta de dados novos, fossem necessários exercícios gramaticais para prolongar o que já foi dito, páginas atrás.
Vale o preço que apresenta na edição de bolso, não é mau, mas a força do título merecia igual força do miolo.

8.02.2012

mais coisas de ler

Pondo os comentários literários em dia (sou um gajo pretensioso), dedico-me agora ao "Afirma Pereira" de Antonio Tabucchi, o meu primeiro livro do autor.
Sumariamente, é um livro a não perder.
Adaptado para o cinema um ano após o seu lançamento, desenrola-se em lisboa, num verão tórrido de 38 e retrata uma cidade (e um país) acomodada ao regime Boca-Fechada-e-Pouco-Pio, que teima ainda em permanecer, focando-se no acordar paulatino de um solitário jornalista lisboeta.
A leveza das palavras é, quanto a mim, a principal eloquência do livro. Num contexto romântico urbano, pauta pela suavidade da escrita, pela incomparável fluidez do discurso e pela construção progressiva de um enredo que se adensa à medida que o texto avança.
De pasmar os diálogos fluentes e o jogo de palavras sugerindo uma transcrição de qualquer interrogatório policial perdido num arquivo central, tornando, assim, o final surpreendente.
Vale, por fim, pela implacável humanidade que encerra, afirmo eu.

7.31.2012

Coisas de ler

Depois de sucessivos adiamentos lá terminou "Baudolino". Começa a ser recorrente a leitura amputada para mais tarde terminar, mais amansado da agrura das palavras.
Não que não seja uma escrita fluente e com enredo interessante, mas o anúncio, à partida, de mais um Fernão Mendes Pinto, havia-me desinteressado do enredo.
É, na realidade, mais um livro de fôlego de Umberto Eco pontilhado por um rigor histórico que vaticina, para quem aprecia a carga mística do espaço mental medieval, uma real compreensão das questões estéticas e espirituais que rodeiam o pensamento e os atos do homem do séc. XII.
Amplamente imbuído de uma religiosidade e de uma conceção do mundo como resultado do pecado original, não esquecendo o complexo jogo geopolítico que caracterizou o período do império de Frederico I, a obra reflete um profundo conhecimento do bestiário e pensamento medieval, mediado entre um deus aurifico e um mundo de seres lendários que povoam o mundo desconhecido.
Aprecie-se especialmente, quanto a mim, as questões do surgimento das primeiras universidades, dos jogos de poder político-religioso entre Frederico I e Alexandre III, do pensamento teocrático medieval, da conceção do mundo paralelo de bestas indizíveis, dos jogos de poder do império bizantino, do culto das relíquias (e produção) e, pérola improvável, das questões do retomar do pensamento clássico hipaciano, preconizador do pensamento renascentista que séculos depois ir-se-á impor.
Destaco a requalificação que Umberto Eco faz da "Casa Dourada de Samarcanda" imortalizado por Hugo Pratt, prisioneiros míticos de Aloadin que aqui surgem magníficos.
Bom livro para quem aprecia alguma densidade do pensamento pantocratico do contexto medieval.

12.21.2011

sombras de um vento catalão






Acabei, há dias, o refrescante livro de Ruiz Zafón, "A sombra do vento". Entre mistérios e cenas de género, correm páginas sem se dar por isso, num enredo entusiasmante que nos transporta para Barcelona dos anos 40-50.

Sem mácula, a mancha é agradável e a tradução de qualidade, deixando perceber, entre as palavras, a sonoridade catalã que lhe está no sangue.

Apesar de algumas soluções maneirinhas para a conclusão do livro, mantém sempre a coerência da história e uma lógica de facto-consequência que justifica os milhões de exemplares já vendidos.

O início da narrativa é francamente bom e a história desenrola-se num ciclo de vida que, no final, se torna evidente, num discurso divertido e consistente que dá vida às personagens que povoam o livro e salpicando os actores com uma fantasia latina entre a estiva húmida caribenha e a orvalhada glacial ibérica.

Boa escolha para as noites frias de Inverno.

12.14.2011

entre bispos, frades e heresias

Li há algumas semanas "A Estratégia do Bobo", um livro perdido de Serge Lentz, autor algo conhecido na França na década de 80 e que a Círculo de Leitores publicou há alguns anos.

A história passasse na Europa Piccolominesca da pré-reforma protestante, deambulando entre a devassidão humana que caracteriza as suas construções.

No coração da igreja católica de meados do século XV conta a história da ascensão-queda-ascensão de um jovem bispo e da visão libertária de um vivido frade, movedora de hordas populares.

O enredo é motivador e as personagens vivas e interessantes, caracterizando de forma entusiasmada a época e a populaça que a habita.

Não deixando de lado o formato circular do romance histórico, à medida que se aproxima do fim vai deixando transparecer a incapacidade da história evoluir, deixando à deriva algumas páginas e fazendo perceber um final decepcionante.

A qualidade do conteúdo que até aí o vai caracterizando, apesar de algumas incongruências, é debelado por um final previsível reflectindo a incapacidade do autor em perceber qual o caminho próprio que a história estava a percorrer.

De toda a forma, esquecendo as últimas 20 páginas, vale a pena dar-lhe uma vista de olhos.