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7.01.2013

O monstro da ciência - citações

Na ciência global e interdisciplinar actual, a citação parece ser a cola que permite que a fina corda entre a evidência e a especulação não seja quebrada. Por isso mesmo é a citação a base da qualidade científica de periódicos, de autores, de afiliados e também o barómetro da verticalidade científica do trabalho produzido. 

12.26.2011

o monstro da ciência - tipos de documentos científicos






A publicação de ciência é o veículo para a partilha e validação do conhecimento produzido. Como referia Merton em 68 na Science: "for the development of science, only work that is effectively perceived and utilized by other scientists, then and there, matters".

Assim, os suportes de ciência apresentam-se como vitais para a difusão da informação aos pares assumindo 3 dimensões genéricas que Garfield em 1955 sistematizou: o livro - macro unidade (compilador de conhecimento), o artigo - micro unidade (produtor de ciência) e o índice - nano unidade (referenciador de conhecimento).

Dedicar-nos-emos apenas aos tipos de documentos micro, as unidades que, grosso modo, (re)criam novos formatos, comprovam ou desmentem paradigmas, que impelem o conhecimento a evoluir e deixando de lado as largas dezenas de formatos de publicação que os Subject Headings ou Thesaurus indicam.

De facto, o termo journal articles (original research, scientific letters, notes, reports, conference papers e reviews) resume os tipos de documentos científicos possíveis e que, não sendo exclusivos, em post posterior, iremos sistematizar.

Existem, de forma genérica, três tipos principais de artigos:

- investigação original, publicada em primeira mão em revistas de referência para a área científica ou em sites de especialidade e que apresentam formatação diversa, desde experimentação laboratorial, testes clínicos, estudos metodológicos, resultados de conferências, etc.;

- estudos integrativos, baseados no conhecimento já produzido e sistematizando conceitos ou revendo o conhecimento teórico já produzido, como são exemplos as revisões sistemáticas ou as guidelines;

- outros tipos de artigos, resultam de dados emanados da leitura e análise dos dois tipos anteriores ou de casos sistematizadores da prática e resultam em comentários, casos de estudo, editoriais ou cartas ao editor.

Por norma os tipos de documentos respondem a uma de três necessidades: explicar novos conhecimento, compilar conhecimento produzido ou comentar resultados anteriores.

Pretende-se responder à máxima de Merton partilhando conhecimento, mas, na realidade, fundamenta-se em factores bem mais complexos e a que me dedicarei em post autónomo.


10.18.2011

O monstro da ciência - países produtores




A ciência é, em larga medida, uma actividade em que a rivalidade com os pares está à flor da pele.

Apesar de penoso o processo produtivo e a dificuldade de reconhecimento do trabalho realizado em países da periferia, como o nosso, e apesar da dificuldade em entrar no restrito meio académico, a competição pela hegemonia científica está na ordem do dia, utilizando-se rankings científicos para avaliar a saúde científica das nações.

Utilizando uma das duas bases de dados referencial da qual resulta ranking de impacto: o Scimago Journal Rank, cedo percebemos a hegemonia americana apenas beliscada pela China, o Reino Unido, o Japão, a Alemanha e a França aos quais se segue uma longa cauda de 230 países produtores (Portugal surge num sofrível 34.º lugar).

Os números parecem claros. Apesar disso há que analisar a tendência geral de evolução da produção científica por países para percebermos para onde caminhamos.

Tomando por medida o número de documentos publicados (citáveis e não citáveis - comentários, erratas, etc.), fizemos um exercício simplista de análise da dinâmica de evolução da produção de documentos dos dois principais produtores mundiais: o EUA e a China.

Assim, se os EUA tiveram uma média de crescimento do número de artigos científicos de 0,22% ao ano, a China apresenta uma média de crescimento de 1,11%/ano, mais do que quintuplicando o crescimento científico relativamente à congénere, representado, os últimos 4 anos (2007-2010) 56,5% do total de registos publicados em detrimento de 31,9% do total de registos publicados pelos EUA.

Este tem sido uma das discussões recorrentes (scientometricamente falando), especulando-se ou encontrando-se evidência sobre quando poderá a China quebrar a hegemonia americana. A voz do barulho diz que a próxima década ditará o fim do domínio americano (também na produção científica), mas o proteccionismo científico (auto-citação), o contexto editorial e os incentivos à publicação (para além de outros factores menos claros) são variantes do mercado aos quais a produção nacional irá responder, tornando difícil um prognóstico.

Certo é o fim do domínio americano na produção científica, incerto o quando e quem o propiciará, se os países do BRIC a forçar a queda, se a Europa que parece ainda ter uma palavra a dizer nesta guerra científica sem quartel, entre nações.

9.29.2011

o monstro da ciência


É sabido que a ciência não está no topo da agenda das preocupações individuais (ou colectivas na nossa república das bananas) do comum dos mortais. Ainda que tenha dado origem à maior parte dos conhecimentos, aplicativos, produtos, meios e vontades que nos rodeiam, não reflectimos com frequência sobre o seu papel no nosso mundo.

Na verdade foi-se passando a palavra que ela revestia-se de uma inteligibilidade complexa, dando-se motivos obscuros, idealistas ou fantasiosos para a sua produção.

Talvez por isso o mecanismo mental que despoleta os sentidos tenha aplicado, à ideia de ciência, uma carga negativa (ou pelo menos pesada) que impedirá tantos de tentar perceber os processos básicos de produção científica, não os conteúdos, apenas os motivos da sua produção, dos formatos de disseminação ou das batalhas de gigantes que a impelem a evoluir.

Todos nós nos lembramos dos calhamaços intragáveis que nos faziam marrar nos melhores dias de verão e talvez por isso tenhamos desenvolvido uma aversão natural a esses infindáveis glossários de fórmulas, de palavras, de frases intrincadas, só acessíveis a alguns e que nos têm afastado do verdadeiro formato e sentido em que é produzida a ciência.

Muitos se têm dedicado ao tema mas poucos terão prestado atenção ao que esses seres estranhos têm dito, criando um ruído difícil de transpor e tornando os seus produtores atores secundários num limbo entre a criação impar de valor e a desvalorização coletiva do seu trabalho.

O monstro da ciência passará a ser um conjunto de ideias próprias que partilharei sobre os formatos, motivos e tendências da ciência atual, desmistificando-a aos meus próprios olhos.

6.29.2011

EMBALLAGE EUROPE – velhas ideias ainda populares – a criação da European Packaging Federation

Em 1953 fundava-se a European Packaging Federation (EPF), como corolário da Conferência de Embalagem em Itália que juntou os representantes dos centros de embalagem da Alemanha, França, Holanda, Áustria e Suíça, desenvolvendo um trabalho de colaboração das várias associações no sentido da normalização de tipos e materiais de embalagem, congregando trabalho já desenvolvido por algumas organizações nacionais e fomentando novas práticas que incentivassem à participação internacional mais ampla.
Sob a égide da Organização de Cooperação Económica Europeia (OECE), pretendeu-se a estandardização de formatos, potenciando economias de escala e tendo por base a normalização de procedimentos e resultados, bem como o estabelecimento de normas de controlo de produção, considerando os complexos interesses dos stakeholders: produtores, transformadores, utentes, fabricantes de maquinaria, comércio, transportadoras, entre outros.
Os primeiros 10 anos de existência da EPF pautaram-se pela consolidação de actividade e articulação conjunta, tanto entre as diversas organizações nacionais, quanto com os comités de normas reunidos no já reconsolidado International Standards Organization (ISO)(1) . De facto, na sua década inicial, criou um sector de embalagem adstrito à ISO, com diversos comités: ISO/TC 52 – latas de conservas, ISO/TC 17 – folha de flandres (2), ISO/TC 53 – embalagens de produtos refrigerados, ISO/TC 63 – gargalos de vidro, subcomité do ISO/TC 6 – papel, designado embalagens de papel e cartão, ISO/TC 51 – tabuleiros para transporte de mercadorias e ainda o ISO/TC 88 – marcação de embalagens de transporte.
Ao EPF cabia a divulgação das normas junto dos associados e a utilização dessas normas como base do trabalho internacional colaborativo. Estes trabalhos desenvolveram-se no âmbito de estruturação de formas de embalagem por tipo de produto, no âmbito técnico e científico no desenvolvimento de novas soluções tecnológicas e optimização de métodos e processos de produção e ainda no âmbito da unificação das determinações sobre a nomenclatura de qualidade nas embalagens de transporte, criando uma marca de qualidade unitária europeia da embalagem produzida - a EMBALLAGE EUROPE.
Destaque-se a pertinência e actualidade das questões levantadas em 1953, a complexidade de criação de processos de normalização, de controlo de qualidade e de criação de chancelas de qualidade comunitárias, ainda na ordem do dia comunitário e cujo trabalho europeu ainda necessita de consolidação ao nível das nações.
Como roda viva, trabalhamos velhos problemas com novas ferramentas, esquecendo, muitas vezes, a engrenagem original que criou a máquina que criou os processos que construiram a base de qualidade dos produtos e embalagens certificadas: em suma, que nos criou a nós reclamos andantes que somos de marcas e embalagens...

Quem quiser saber mais sobre a European Packaging Federation, não sei o que recomendar, esquecida que é hoje do comum dos mortais... se o google não a apanha, não existe, se o google não o referencia, não existe como memória de nós.

Por isso me dediquei agora à EPF.


(1) O ISO foi fundado em 1926 como International Federation of the National Standardizing Associations (ISA), focado na engenharia mecânica. Tendo sido descontinuado em 1942 durante a II Guerra Mundial, foi reorganizado em 1946.



(2) Folha de Flandres – material base para embalagens de folha fina.

5.02.2011

non finito

Há uns tempos, tentei, sem efeito, fazer uma revisão sobre o renascimento, no que se refere ao ressurgimento clássico e aos princípios formais do renascimento.

Hoje, o homem de vitrúvio relembrou-me a lição... não tanto pelos apontamentos, mas pelo espírito contemporâneo que um revivalismo potenciou, talvez não por si só, mas pelos homens que o fizeram, indo muito além dos cânones e do academismo que ele representa.

Com Bounarroti e a ideia a que deu forma, revoluciou-se o conceito do afloramento original e da intenção criadora travada pelo espírito da matéria.

A partir daí a forma extravasou a ideia, o artista libertou-se dos ferrolhos apertados da fórmula clássica (arte=ideia+forma), transformando-se na entidade salvadora do espírito que a matéria aprisiona.

Com a sério "os prisioneiros" libertou-se a forma da ideia, deixando ao artista a vã glória de decapar o que o espírito original retém. Do artista, nasceu o artesão que arranca à pedra a alma encarcerada.

E assim se fez arte. Pena que alguns não a vejam como ela é... a esses, chamo-lhes artistas, aos outros, anarcas libertadores da matéria.

1.12.2006

O espírito renascentista

O Renascimento dá início à época moderna. A sua vigência e propagação pela Europa, fundamenta-se em dois aspectos fundamentais que importa, agora, ter em consideração.

Por um lado o espírito fervoroso que caracterizou a vida medieval até então, entra em declínio. O humanismo e os valores profanos surgem, agora, ao contrário do que acontecia no passado, como valores inegáveis do intelectual moderno, motivado por um quadro geral de restauração da cultura greco-romana em ruptura com a Idade Média. Tudo o que é humano passa a ser tido em conta e, até, em certos literatos, concebido como o cerne da existência, tal como defende Pico della Mirandola em A dignidade do Homem de 1487: "nada é mais admirável do que o Homem".

Por outro lado, em contraste com o sacerdotalismo medieval, assiste-se à afirmação da supremacia do poder civil sobre as autoridades religiosas e ao fortalecimento do poder real, abrindo portas ao absolutismo que, mais tarde, será apanágio das monarquias europeias. Em Portugal, D. João II (o príncipe perfeito) encarna o reforço do poder real e o desprendimento de limites morais.

Noutro plano, mas não de menor importância, inicia-se a saga dos Descobrimentos, tarefa de cunho universal e planetário, em que os portugueses desempenham papel primordial. Com as descobertas, vêm os progressos das técnicas e da mentalidade científica: a cartografia, a ciência náutica, a astronomia, as ciências naturais e, com eles, mudanças profundas a nível cultural, económico e social.

Surge, então, o capitalismo moderno, o início do processo de globalização do comércio, com novos produtos e novos mercados, deixando de ser limitar à Europa e, por isso, requerendo outras iniciativas de âmbito nacional tendentes à protecção da manufactura interna, reforçando, desse modo, o poder centralizado.

Será esta ambiência de mudança e valorativa do Homem, que levará à reforma protestante e à resposta católica com a Contra-reforma, acontecimento que conduzirá, de novo, a civilização ocidental para o culto do divino em detrimento da relevância humana.

É um mundo em mudança que surge por volta de 1400, é uma sociedade mais distante do medievalismo rural e mais próximo do modernismo comercial. Para isso, contribuiu esta teia de factos e vontades rompendo com o passado próximo e consolidando as formulações do passado longínquo.

Como refere Cabral de Moncada, "depois da Grécia e depois do Cristianismo, nenhuma outra revolução na história do espírito europeu teve até hoje consequências tão transcendentes como o Renascimento". (Filosofia do Direito e do Estado, p. 94).
adaptado de AMARAL, Diogo Freitas do (1999).
História das Ideias Políticas.
v.I. Coimbra: Almedina, 193-195.

1.11.2006

O ressurgimento clássico, por volta de 1400

As soluções artísticas respondem sempre a uma fundamentação histórica do contexto em que surgiram. São, portanto, o resultado da conjugação de factores que justificam o aparecimento de determinada solução artística, em dado espaço.
Relativamente à génese do Renascimento, também factores sociais, económicos e políticos contribuiram para a sua (re)invenção, em Florença, por volta de 1400. Investigações com não mais de duas décadas, relatam circunstâncias especiais que propiciaram o seu aparecimento nesta cidade-estado.
Por volta de 1400, o estado florentino enfrentava uma séria ameaça à sua independência. Milão, cidade em ascensão, tenta dominar toda a Itália, tendo já subjugado as planícies da Lombardia e boa parte das cidade-estado da zona central da Toscana.
A bem sucedida resistência aos intentos do duque de Milão, na área militar, diplomática e intelectual, por parte dos florentinos, propiciaram a elevação de um espírito patriótico que será mantido pela própria populaça, proclamando-se defensora da liberdade contra a tirania do invasor.
Era uma guerra de propaganda, portanto, chefiada, em ambos os lados, por humanistas herdeiros de Petrarca e Boccaccio. O Louvor da cidade de Florença de Leonardo Bruni é disto exemplo, colocando em foco o ideal petrarquiano de um renascimento dos ideiais clássicos.
De facto, esta obra é de vital importância para compreendermos a percepção ideária da opinião pública florentina. Indaga sobre as razões da subjugação, sem custos, dos outros estados da panínsula itálica, ao invés da resistência por si protagonizada, encontrando a resposta no mérito das instituições, nas realizações culturais, na situação geográfica, no espírito do povo, até, nas raízes etruscas da sua pátria.
O orgulho patriótico e o apelo passado implícitos nesta imagem de Florença como a "Nova Atenas", terão despertado um profundo entusiasmo na cidade, lançando-a numa febre construtiva, segundo um novo ideário, de acordo com os cânones de proporção clássicos.
O concurso de 1401-02 para as Portas do Paraíso, do Baptistério, em que ideiais arcaizantes levaram, ainda, vantagem sobre as representações escultóricas individualizadas e de inspiração clássica de Ghiberti, foi o lançamento de um extenso programa de decoração escultórica prosseguido em diversas igrejas, enquanto se dava andamento aos planos para a construção da cúpula do Duomo, que será protagonizado por Brunelleschi e cuja camapnha durará mais de trinta anos, até 1436.
O entusiasmo e fervor patriótico da época, foi, portanto, o ténue motor que levou ao surgimento de uma arte representativa do espírito magnânimo, mas ordeiro, clássico, pelo que a aplicação das suas soluções dogmáticas, surgiu como natural, dentro de uma espírito civil de superioridade intelectual, cultural e, por isso mesmo, civilizacional.

In JANSON, H. W. (1992). História da Arte. 5ª ed. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 391-392.

continua...

Princípios formais do Renascimento

O movimento artístico que designamos por Renascimento, nasceu na Península Itálica, em Florença, nas primeiras décadas do século XV.
De momento, iremos apenas abordar a questão dos seus princípios formais, deixando a justificação do seu aparecimento, para notícia posterior.
Este movimento, complexo e variado, estabeleceu novos princípios de representação, novos métodos de trabalho das formas e, sobretudo, tipificou formulações originais, tanto ao nível da (re)criação de cânones, quanto ao nível da proporcionalidade como medida de todas as coisas.
Tais concepções formais, provêm de duas fontes primordiais: por um lado, a reutilização, após quase um milénio de interregno, das concepções clássicas - motivado pela descoberta de vestígios arqueológicos gregos e romanos, como é exemplo conhecido o levantamento do conjunto escultórico de Laoconte -, por outro lado, inicia-se, de forma corrente, a aplicação, às artes maiores, da perspectiva, descoberta técnica cujas regras de desenho e matemáticas permitem reproduzir o aspecto real da sobreposição dos objectos no espaço.
A requalificação dos ideias gregos e romanos, viu na arquitectura, que dispunha de monumentos clássicos visíveis como fonte de inspiração, um campo privilegiado de difusão, apoiando-se em leis construtivas e decorativas estritas, reproduzindo e reavivando os conceitos clássicos.
O segundo elemento, a perspectiva, foi apenas o mais visível de uma série de descobertas artísticas revolucionárias, como a pintura a óleo, a preparação dos frescos através de cartões, a redescoberta das estátuas equestres, o achatamento dos baixos relevos, os tirantes metálicos nas abóbadas, entre outras. Quanto à perspectiva, permitia um maior realismo na representação, propiciando, novos conhecimentos científicos por parte do executante, sendo, por isso, o percursor da emancipação social e profissional do artista.
De artesão afecto a uma guilda medieval, torna-se indivíduo criador, artista com uma percepção da realidade e sua compreensão pessoal, apesar do respeito pelos cânones representativos. Porém, não demorará muito até que estes mesmos padrões comecem a ser postos em causa, em detrimento de outra realidade idegável, a construção mental do objecto que viam...
continua...

11.25.2005

O Castelo de Noudar


O relâmpago flamejante na planície cerrada, surpreendia a solidão e dava alento para mais um dia no deserto de palavras que implicava a estada em tal latitude.

Pela manhã, os bons dias eram oferecidos a todos, por esvoaçantes que, sem receio, deambulavam pelas muralhas avulsas esquecidas de todos.

Alguém se havia lembrado delas, no início do século, pelo que havia sido classificada Monumento Nacional. A partir daí, abandonada, apenas o balir e o latido acompanhavam a lenta degradação das estruturas.

A população que encerrava, havia partido há muito, sem saudades do regresso, tal a lonjura da civilização. O motivo, diz-se, terá sido um epidemia que dizimou a população e que a fez procurar outras paragens.

Situado na terra de ninguém, entre Portugal e Espanha, era posse obrigatória para quem quisesse dominar a região, pelo que as batalhas sucederam-se, até à assinatura de paz em 1668. Bom, não terá sido bem assim, em 1894, a contenda entre os beligerantes, foi sanada por acordos carimbados a sangue, irmanando, para sempre, o que era de cada um.

O castelo, isolado, deixou de ser preciso, deixou de ter significado, pelo que o esquecimento natural de quem vive o dia a dia o tornou cada vez mais distante e inacessível.
Vive, actualmente, da sua paisagem, do isolamento, do peso do passado ainda por explorar. O ambiente sinistro marcado por fantasmas de outrora aí tombados, pairam errantes por entre o vento que gela os corpos à sua passagem.

A paisagem verdejante acalma o espírito, pintalgada de vida e de cheiros ondulantes, é toda ela dinâmica com a brisa que sopra, trazendo sons longínquos e imperceptíveis ao ouvido, mas reconhecidos por quebraram o silêncio avassalador que impregna o ar.

Num espaço esquecido, tudo é volátil, apesar do vento levar a mensagem da sua existência, a corrente de pensamento, longe de imaginar a sua existência, e de se dedicar a assuntos da memória, deixa-a escapar, até à ruína...

Assim vai o nosso património.


Fotografias gentilmente cedidas por Raquel Neves.

2.15.2005

Os portuenses do Agostinho!

Os portuenses, em 1788, não eram os mesmo de hoje, apesar de agora se viver a era da normalização... Havia, na altura, grande homogeneidade na definição do habitante do Porto, senão vejamos como definia, o Agostinho, as gentes da "Imbicta":

Geralmente falando são os portuenses de estatura mais que mediana, têm a cor do rosto alguma coisa morena, mas animada de um rubicundo agradável, olhos e cabelos pretos, rostos compridos, corpos bem feitos e constituição robusta. Têm a alma nobre, sentimentos honrados e acções civis.

In COSTA, Agostinho Rebelo da - Descrição Topográfica e Histórica da cidade do Porto (...) datada 1788 (...). 3ª Ed. Lisboa: Fernesi, 2001.

12.27.2004

Das Bacantes às Nymphs.... que raio de tradução!

A Dança das Bacantes, gravura de Vieira Portuense de 1799, presente na Biblioteca Geral da Faculdade de Ciências do Porto, foi, para a época, o culminar do revivalismo arqueológico da Antiguidade que então se vivia.

Exposta no Salão da Royal Acamedy of Arts, nesse mesmo ano, com o número 868 do catálogo, apresentou-se com a fidedigna tradução de A dance of nymphs.
Nada a acrescentar se a tradução fosse a exacta...

O letrado tradutor, pelo contrário, adulterou todo o sentido da composição. De Bacantes excitantes e provocatórias no seu culto isotérico, a Ninfas, juviais e inocentes, belíssimas, sem dúvida, mas sem a carga eminentemente sexual das primeiras.

Senão vejamos o significado de uma e de outra:

Por Bacante, designamos as sacerdotisas do culto a Baco, as mulheres que tomavam parte nos bacanais.
De puritanas à procura da elevação do espírito e à santificação da vida, rapidamente o fanatismo pelo culto tomou proporções grutescas, em que os excessos, a embriaguês e o furor orgiástico procurava alcançar uma elevação superior. Correspondiam a três grupos: as Furiosas (verdadeiras ninfomaníacas que, depois de sugarem os fluídos corporais, antropofajavam os vários parceiros, segundo a minha fértil imaginação!); as Tíadas ou sacerdotisas (puras donzelas que não aceitavam a fornicação pura e simples, ao contrário, mascaravam-se com presopas gregas com vista a não serem reconhecidas, mantendo assim limpa a sua imagem santificada... que delírio!); e as Coras (verdadeiras devassas, do mais puro hardcore clássico, aliás, será esta a origem da palavra, já que a depravação chegava a tal ponto que faziam-se concursos públicos para se saber quem aguentava com mais indivíduos...[!?]).

Já as Ninfas... eram verdadeiras divindades! Personificavam a força da Natureza, especialmente o princípio húmido que presidia aos rios, fontes, etc. Para Homero, eram filhas de Zeus, nascidas das águas dos céus que, caminhando por vias secretas, apareciam à superfície sobre a forma de mananciais.

Corrigimos, pois, 205 anos depois, o erro do editor do catálogo!

Pelo erro pedimos as nossas desculpas!!!

12.22.2004

Dr. Mirandela... ou o cientista que sabia escrever!



- Tratado único do uso e administração do azougue nos casos em que é poïbido, Lisboa, 1708;
- Medicina Lusitana: socorro délfico aos clamores da natureza humana para total profligação de seus males, Amsterdão, 1710 (2ª ed., 1731)
e Âncora Medicinal para conservar a vida com saúde, Lisboa, 1721 (2ª ed., 1731; 3ª e 4ª em 1740 e 1754).
São alguns dos maiores êxitos de Francisco da Fonseca Henriques, doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra, nascido em Mirandela em 6.10.1665 e morrido(?) em Lisboa em 17.4.1731.
Personagem principal das notícias anteriores, era, até hoje, um desconhecido para mim, tal como, acredito, para muitos... e continuará a ser, enquanto não derem uma espreitadela neste blog!!
Foi um cientista erudito. Médico de D. João V, era conhecido por Dr. Mirandela! Porquê?
Será difícil de encontrar uma resposta sustentada... Escreveu variadas obras entre 1708 e 1721.
A qualidade do que criou era tal, que foram feitas várias reedições de dois ou três livros seus - pasme-se, no país iletrado e rabugento que eramos (e que somos!?). A pureza de linguagem é marcante, motivada, talvez, pelo profundo conhecimento do latim que detinha.
De notar ainda a obra, Aquilégio medicinal em que se dá notícia das águas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal e dos Algarves... dignos de particular memória, Lisboa, 1726. Última obra, a servir de corolário a uma vida dedicada à ciência e erudição... Triste a natureza humana quando nos confinamos a uma coluna de uma qualquer enciclopédia, após uma vida de sacrifício!

12.20.2004

Limões azedos...refrescam muito e previnem a podridão!


A farmacologia galénica do século II a.C. estudava já a importância das vitaminas no cardápio alimentar dos humanos. Assim, graduava a qualidade dos alimentos - quentes, frios, húmidos e secos - procurando, desta forma, criar uma hierarquia dos manjares terrenos.
Esta doutrina manteve-se ao longo do tempo.
O nosso velho conhecido Fonseca Henriques, no afamado Âncora Medicinal de 1731, refere-se precisamente a esta classificação, da qual retiramos alguns excertos ilustrativos da ordem alimentar em voga na época.
Acreditamos que pouca gente faria caso disso, até porque o sustento era o pão! Mas...também... ninguém lê esta notícia e nem por isso deixo de a escrever!!
Portanto lá vai, em honra do eloquente e facundo Henriques!
os cogumelos são frios e secos;
o melão e o tomate, frios e húmidos, como as bananas;
as uvas, quentes e húmidas;
as nozes, quentes e secas, assim como a pimenta, o cravo, o gengibre, etc.
o sumo de limões azedos refresca muito e é contra a podridão (...)
O autor defende, ainda, a existência de alguns alimentos para a sustentação do Homem segundo a idade e a estação do ano. Como exemplo, vejamos o que diz em relação ao Inverno:
No Inverno que é frio e húmido, hão-de ser secos e quentes; não só por se contrariarem às qualidades hiemais, mas para gastar, ou temperar as muitas serosidades e fleumas de que os corpos abundam.

12.19.2004

O café ajuda... na flatulência!

No mesmo ano de entrada do primeiro barco com café, em Portugal, vindo do Brasil, o dr. Francisco da Fonseca Henriques edita a sua Âncora Medicinal, conferindo a este caro e estranho líquido as qualidades terapêuticas naturais de uma bebida elitista...

O café... é quente e seco; tem muitas partes ténues e balsâmicas, e muitro sal volátil como se colhe do cheiro que exala, e do suco oleoso que de si lança, com o qual corrobora grandemente o estômago e cérebro; refera as obstruções das entranhas e útero; e por isso é eficacíssimo em provocar a purgação dos meses... ajuda a digestão de alimento; é útil nos males da cabeça; impede a temulência ou a modifica, porque reprime e abate os vapores do vinho e dos mais licores espirituosos; conforta a memória, alegra o ânimo; é remédio nas vertignes, nos estupores, paralisisas, apoplexias, nos sonos profundos, nas hidropisias, nos catarros, nas fluxões do estilicídio ao bofe, na gota artética, nos males dos olhos, dos ouvidos, nas palpitações do coração, nas hipocondrias e flatulências, nas cólicas de causa fria, nas quedas, nas supressões de urina, que é mui diurético...

Um café por favor!...

De 1731, datará o primeiro carregamento de café do Brasil para Portugal. De facto, a Gazeta de Lisboa Oriental n.º 4 de 25 de Janeiro, elogia a pureza do café encontrado no sertão do Maranhão...

Nos últimos navios que chegaram do Maranhão veio algum café, que se descobriu no sertão daquele Estado, ainda de melhor qualidade que o do Levante (...)

A descoberta de tão aromático e extravagante néctar em solo da coroa, não foi dado por esquecido. Em Julho de 31 já o governo de D. João V isentava de direitos, por 12 anos, a entrada no país de canela e café do Brasil. De prorrogação em prorrogação, o comércio foi-se estabelecendo. Em 1765 a Companhia Geral do Maranhão e Grão-Pará, braço económico do estado e tais paragens, transportava já 3.000 arrobas de café para a metrópole.