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12.29.2014

Poema em carta no quiosque da Areosa

Escrevo-te longe já de teus olhos Adorinda, embargado pelo peso do sentimento, pelo fardo da partida. Susterei a respiração até voltar, ancorado à memória de teu perfume.
Medeiros não serei mais. Serei uma caricatura disforme, ansioso pelo regresso. Lá longe onde o vento sopra quente, guardar-me-ei dentro de mim, libertando-me quando meus olhos pousarem, de novo, nos teus, Adorinda.
Guardarei com cuidado, para não se partir o teu Medeiros, aquele a quem chamas exagerado. Exagerado por o inspirares, por trazeres o perfume de teu corpo no vento que o acaricia.
Que longo caminho o de teu odor Adorinda e que benfazejo esse vento que o trazes. Vento suave esse que o embalas, leve, como teu lábios de veludo, Adorinda.
Sou exagerado, Adorinda. É exagerado o Medeiros. Sim, exagerado. Sim, é.
É também imperfeito, taciturno, estouvado. Pessoa, enfim.
É um heterónimo de mim. Sou louco, Adorinda, é-o também Medeiros, desavergonhado, com o coração na boca. É pedra fria. É pedra fria Medeiros de cabeça perdida, é pessoa, enfim.
Somos tudo e muito mais. Somos apaixonados, Pessoa, enfim.
Somos apaixonados, eu e Medeiros. Apaixonados, eu. Por ti, enfim.


Há no velho quiosque da Areosa uma austera moldura com a carta de amor de Medeiros. Decrépita e pronta a esfumar-se no tempo, como a parede que a segura, recebe o bulício matinal de uma artéria movimentada na periferia do Porto.
A posse é antiga, de tempos idos há muito, pertença anterior da tia-avó de José Silva, o velho proprietário, que há altura das partilhas havia ficado com um molhe de cartas velhas, foda-se. Do recheio de casa antiga sobram papéis carcomidos, porra. Papeluchos da tia Adorinda, que deus a tenha e guarde no eterno descanso, mas que podia ter-se lembrado do seu sobrinho querido, porra. Nem um chavo pra' amostra.
A prosápia do Medeiros, como lhe chama o Silva, é a derradeira prova de amor que Manuel havia deixado, para ler mais tarde, quando da longa viagem no vapor para Lourenço Marques, onde seria representante comissionista da já decana Companhia de Vinhos Borges, na senda de alargar o negócio e de conquistar clientes no inexplorado, mas florescente, mercado africano.
O Silva havia-a emoldurado há mais de dez anos, após folhear, atento, a resma de papéis escritos, catando, sôfrego, qualquer valor escondido nos resquícios de herança que lhe calhara. Compenetrado por momento largo, dada a intensidade da correspondência, levantou-se, enfim, mudo, de olhos esbugalhados e papelada segura debaixo do braço. Não mais permitiu à família tocar, sequer, na intensa correspondência dos dois amantes, verdadeira novela de cordel de gosto duvidoso e vocabulário impróprio para gente de bem e temente ao senhor.
Num laivo de silêncio cúmplice, ou de vergonha, pelo amor alheio de vidas passadas, encarcerou as epístolas do demo-com-cio no armário do quarto. Fê-lo, diz, por respeito à sua tia-avó. Fê-lo, talvez, pelo pudor tonto de quem não ama e que, por isso, não sabe que a palavra escrita, quando impregnada desse fogo ardente, não tem gíria nem calão
A prosa poética devia, de facto, ter-se já esfarelado depois de tantos anos de amasso, lágrimas escancaradas, cálidos afrontamentos, suspiros. Estava, assim, gasta mas legível. Firme como a palavra dita, valendo releituras diárias no mortiço quiosque da Areosa, cafofo especializado na venda de parafernália de estirpe e feitio diverso, produtos sem eira nem beira, chinesices sem sentido, tralha inominável e outras merdas sem jeito que iam desaparecendo, a conta-gotas, pela altura do natal.
Relera-a Adorinda, vezes sem conta, em surdina, até adormecer. Dias sem fim à espera de mais uma carta do Medeiros. Assim o fez meses, anos, décadas, agarrada ao pedaço de papel já bolorento da humidade que carregava consigo. Fora a última prenda do Manuel, para ler mais tarde, quando o perdeu para a oportunidade de ouro em trabalhar para empresa comercial de que se havia esquecido do nome, mas que era de futuro.
O toque suave do papel na tez enrugada era, junto com lágrimas suspensas, a sua companhia derradeira no catre escuro de três por três que alugava na rua das Congostas.
Era um casebre arruinado por longa vida, a necessitar de telharia nova e de mãos robustas que lhe aplacassem o peso inabalável do tempo. Ladeado por dois prédios devolutos, com escores rijos de sustentação, tinha por vizinhos a bicharada urbana comum. Também a rua estava enferma, esquecida no murmúrio metálico do pára-arranca habitual.
Doente e devoluta, a rua. Portas arrombadas, janelas emparedadas, monturo da vizinhança, mictório de bêbados.
A octogenária sempre se negara a abandonar o seu reduto. Passava horas de guarda à janela. Rejuvenescia quando apanhava amantes ocasionais refreando ímpetos de macho dominante e fêmea libidinosa. Encolerizava-se com os agarrados de prata-a-queimar que tudo trocavam por miúdos. Sorria com a brincadeira de crianças travessas que por ali apareciam a desmando dos pais.
Acalmava a velha com a brisa noturna, trazendo o aroma à brilhantina do Medeiros, tal como ele lhe descrevera. Sabia ter sido uma artimanha desse malandro que me levava sempre com conversa fiada, matraqueava Adorinda. Mas tinha a certeza que o vento que a afagava, tinha-o antes enlaçado e, por isso, sentia os seus dedos no meu corpo, as suas mãos no meu regaço, os seus braços nos meus, ciciava escarlate, lembrando sarroncas e tamboris de tempos idos.
De dia, torrava Adorinda ao sol estival em seu umbral, seu trono seguro, com a certeza de que aquele era calor enviado por Manuel para lhe alentar o dia.
Era uma sonhadora Adorinda. Tinha sangue vareiro, talvez por isso. Era mulher condenada a sofrer numa espera interminável, ansiando por avistar batel no horizonte. Era, por isso, lutadora Adorinda, envolta em xailes vários sobre botija de porcelana.
Voltava, por vezes, levemente à realidade. Tinha laivos de lucidez que a libertavam do pesadelo. Aninhada nos braços de Medeiros, vertia, exultada, lágrimas juvenis de quem sente o calor do amor.
Logo terminava esse fulgor impossível de acreditar, voltando à prisão de olhar frio, intocável, indiferente ao aconchego diário do seu Medeiros, velho solitário em casa ocupada. Um belo partido esse rapaz, ainda hei de casar com ele, delirava Adorinda.

6.23.2014

O Quiosque Santana

No quiosque Santana amontoam-se cidadãos de pleno direito. São clientes vindos dos mais distantes lugarejos do distrito do Porto à procura de solução para os seus problemas legais.

É o povo autêntico, de pronúncia carregada, que se junta no indiferente estabelecimento contido entre portas, junto à praça dos poveiros.

É uma loja elegante. Sem mordomias vãs nem luxos desmedidos, ao lado do Rufino Oculista, comerciante de clientela fixa da Caixa de Previdência.

O quiosque abre portas pelas dez para fechar quando o último cliente sai, de folhelho em punho, com as instruções regulamentares que o livrarão do acosso da autoridade. É composto apenas por móveis vazios à espera de ser, uma e outra vez, ocupados. Ao toque do batente a porta abre com mecanismo automático, algo rudimentar pelo uso de fio de nylon preso a puxador interior com mola retardadora, para deixar o próximo cliente à vontade na descrição das suas dificuldades. No interior uma cadeira, flanqueada por pequenas secretárias, à espera dos apontamentos que se julguem necessários, ocupam o pequeno espaço quadrangular em frente ao confessionário, tribuna de penitência móvel, em cerejeira bem polida e trespassada por pequenos orifícios circulares, por onde a clientela murmura pecados, e ranhura inferior de onde são cuspidos talões dactilografados com perguntas, recomendações, pareceres, respostas diversas.

O processo é simples: a porta abre, o cliente entra, expõe as suas questões e recebe talões pela ranhura do parlatório. Sabe ler, vai sozinho. Não sabe, arranja quem saiba e o acompanhe.

No final, talão derradeiro com conta modesta, calculando o trabalho à hora, sempre na base dos centavos. Este documento não serve de fatura.

O confessor, Santana, é figura obscura que ninguém se lembra ter alguma vez visto. Apesar do mistério em torno da personagem nunca deixou de haver fila no seu quiosque. É que o parecer entregue ao freguês anónimo, apesar de raramente ser o que se queria, era, invariavelmente, acertado.

Nem todos, porém, estavam dispostos a manter o anonimato de tão enigmática figura. Isso mesmo achava o rotundo e bexigoso Barrabás, bêbado confesso, que iria transformar o mistério em mito.

Depois de inúmeras tentativas frustradas de entrada à força, sempre travado pela fila que aguardava vez, conseguiu Barrabás irromper pela porta, porque tenho de saber quem nos ajuda, e acometer pelo confessionário estacando de pronto, absorto na imagem cintilante e de olhos arregalados que se entrepunha no seu caminho, logo ali apaixonando-se pela altivez de personagem de cinema mudo que o acompanharia, vezes sem conta, nas noites gélidas do seu dormir errante.

Depressa, contudo, chamou-se à razão, acordou Barrabás do seu pasmo e rompeu em sentido contrário, tapando a cara de vergonha e fugindo, porta fora, sem conseguir olhar os embasbacados camaradas que haviam paralisado tal a rapidez com que a velha carcaça barriguda se movia.

Logo nasceu o boato nas línguas afiadas do gentio. O rude Barrabás, sem conseguir explicar se o que viu era verdade, assombração ou fruto da carraspana, entaramelando as palavras como sempre fizera, caiu em descrédito, deixando rolar, à tripa forra, o boato do anjo de Santana que baixava ao quiosque todos os dias para interceder junto das entidades legalmente instituídas e por decreto autorizadas a autuar, fiscalizar, confiscar e culpar, sem apelo nem agravo, a gentalha miúda que teimava em estrebuchar.

Santana é um anjo, caralho. Corria de boa em boca, pelas ruas do Porto. De tal forma que aos necessitados foram-se juntando os agradecidos, seus amigos, respetivos familiares, curiosos diversos, mirones em geral e outros devotos, em romaria pela rua, levando as autoridades a proibir ajuntamentos com mais de cinco pessoas à porta de tão ilustre quiosque, sob pena de identificação e voz de prisão por distúrbio da ordem pública. Liminar, é que com a bófia não se brinca.

Logo ali, porém, a bitaitada começou a correr lesta na boca de labagem da populaça. Filhos das putas dos cabrões de merda. Palhaços do caralho. Idem mamar, eram as palavras de ordem, rumor que subia de tom secundada por uma ou outra sacudidela de pôr o quico à banda, até ser chamado o corpo de intervenção para impor respeitinho. Bico calado ou fodo-te o focinho, ouvia-se por entre os capacetes reluzentes e cassetetes em punho.

O ambiente prometia trovoada, não fossem os berros de Lurdinhas, vareira devota da Santinha que logo ali decretou ser aquele solo sagrado, inconspurcável com violência, zona de culto e demais nominativos que convenceu todos.

Chegou-se então ao meio termo, solução de compromisso, vá. Entre vinte a trinta ajuntados, tudo bem. Mais do que isso, eram postos a circular por ocupação indevida da via pública. Até parecia um estado de direito, foda-se. Ninguém quer levar no focinho por causa da santinha. Quem começar a sarrafada salta logo para o purgatório e, por consequência, alvo de sevícias, que alguns não desgostariam não é, mas que, por via das dúvidas mais vale não arriscar, dizia a vareira que sempre tentava aplicar o novo palavreado aprendido no seu dicionário de bolso, companhia de leito de vários anos, à falta de melhor, uma décima edição do Cândido de Figueiredo que é um mimo, tem palavras que nunca mais acabam.

Santana, santinha para uns, anjo para outros, já calma depois do valente susto com o rompante de Barrabás, aparvalhava-se com tamanha confusão. Sem nunca aparecer (era santa, não asno) ia continuando o seu trabalho, cada vez mais ocupada com o fluxo sempre constante de pareceres que lhe chegavam. Tornava-se hercúleo o trabalho lesto que lhe pediam, enchendo-lhe a sala, agora do castigo, com oferendas várias, algumas delas vivas e de difícil transporte.

Santana era de facto uma santa para os seus clientes. Certamente não pelas prerrogativas da Congregação para a Causa dos Santos mas para os que a ela se agarravam, como lapas, sugando-lhe o derradeiro parecer em busca de salvação.

Santana, contudo, não só era santa como também mulher e toda a confusão que a rodeava atafulhava-a de trabalho e desalinho.

Esguia e de olhar penetrante, havia crescido ao som da ladainha da avó Leonor, vendedora de língua da sogra na costa nortenha, percorrendo, incansável, a linha de veraneio nos quentes dias de estio quando as melhores famílias acorriam às praias ventosas para se banharem nas águas terapêuticas do Norte. A ladainha contínua e o bater forte das ondas na pedra moldou o seu carácter persistente e implacável. Era, por isso, Santana, mais mulher que santa, apesar do burburinho de rezas várias e cheiro intenso a vela queimada que vinha da rua.

Para ela o dia de labuta corria fácil. Não fosse o diferente vociferar da clientela que não arredava pé e o aumento significativo de panaceias legais a ministrar, tudo seria normal na sua correria diária de trabalho em punho.

Mas quando findava o dia, quando percorria as ruas crepusculares do Porto granítico, anónima na sua condição de mulher, tudo se transfigurava. O olhar desanimado de transeunte incógnito, os ombros desalentados do vendedor de rua, as mãos trémulas de velhote, o queixo desesperado de agarradito, isso humanizava-a. Toldava-lhe o discernimento que julgava precisar para a decisão. As pessoas, de facto, suavizavam a sua inclemência profissional. Na luta, as armas têm de ser idênticas ou a batalha está perdida sem sequer ter começado, recordava as palavras de cátedra que havia ouvido noutra vida. Não que considerasse a lei desumana. Claro que não. Não o era simplesmente porque a variável humana não era, sequer, parte da equação no ditame normalizador do regime de então.

Era, por isso, Santana, mulher. Lutava, sem fim, entre o sentimento e a razão e, nessa luta, Santana saia sempre a ganhar. Sentia-o apesar do avolumar de pareceres e do pouco tempo que guardava para si. Como mulher, como pessoa, ganhava já com ampla vantagem nessa bem querença que raramente via em outros mas que a faziam exalar encanto. Era, de facto, encantadora Santana e tal notava-se a olhos vistos. Pela vereda rotineira fazia rodar cabeças, a ver quem passa, carregando consigo um charme de embevecer caminhante. Era mulher, Santana. E nessa condição era olhada com inveja por umas e com gulodice de cafuné, por outros.

Porém, nesse particular, era Santana impenetrável. Distanciava-se, propositada, evitando tanto a devoção, quanto o aflorar de feridas antigas de gata sentida. Rodeava o galanteio com um qualquer bloqueador de piropada que carregava, por precaução, na sua mala. Era insondável Santana, a mulher, insondável.

Os poucos que com ela privavam, pequenos negociantes de rua onde fazia compras, lojistas habituais no seu circuito rotineiro, vizinhos solícitos que com ela partilhavam escadas, todos, invariavelmente, sentiam o seu vigor contagiante, ansiando pela partilha e, por isso, aguardando em pulgas a chegada de seus longos cabelos pretos.

Conversa fácil, sorriso sincero e olhar reluzente cativam qualquer um. E para Santana isso era simples, era ela. Desta forma foi construindo, paulatina, pequeno grupo de devotos, pessoas que aguardavam, impacientes, a sua atenção.

Santana, a santa, era, então, prisioneira de seus afazeres e Santana, a mulher, era, por isso, cativa do seu fulgor. Estava, bem se vê, prisioneira de sua vida, Santana de lindo olhar.

Lentamente sobrevinha a noite e com ela a solidão ia ganhando, lesta, espaço à azáfama do dia-a-dia. Tentava Santana ocultá-la, fustigando-se com calculismos que apenas amainavam o seu abatimento. Criava histórias de carcereira maléfica que tudo controla: Carochinha de dois tostões não sou. Nunca prisioneira de minha vontade. Carcereiro sim, porque quero, prisão dourada em que o ópio sou eu e a minha santidade. Samarcanda de doutores, eletricistas, arquitetos e até paneleiros. Assim trauteava Santana, santa e mulher, acompanhada do negro corvo que a janela bica, noturno, tenebroso, a lembrar que lá fora aguardam, alvoraçados, os carrascos de sua vida.

Assim repetia, até dormir, Santana menina, contendo a lágrima ardente que havia de ser sua companhia por anos afora e que a agrilhoavam à vida, por graça de deus e martírio dos homens.

8.10.2012

quiosque patrício

Patrício é um filho da puta. Não daqueles cabrõezinhos que dão a facada na primeira ocasião para fazer dinheiro. Não. Também não o é pela sua santa mãe que o alimentou, desde tenra idade, com dinheiros amassados à custa do corpo. Não.
É antes um filho da puta amoral. Um daqueles que pesa os escrúpulos quando à frente se colocam valores instituídos, mas que os quebra à primeira oportunidade. O seu quiosque de 1 por 1 reflete-o. É Patrício espelhado.
Único aberto até altas horas, é um quiosque noctívago, isto é, abre de noite, fecha de dia. Não pelas vendas aumentarem, longe disso, nem para poder fugir às rusgas legais que à porta batem em horas de pessoas normais. Não.
Abre para o engate. Para o engate. O homem do quiosque é conhecido por aplacar qualquer incauta que lhe vá na lábia.
Vende muito tabaco o quiosque do Patrício. Também já vendeu cerveja contrafeita, mas os donos dos bares da zona já trataram disso, os filhos da puta.
Agora vende tabaco, muito tabaco. De enrolar principalmente. E contrafeito, aquele sem etiqueta. Desse também. Vende muito desse o quiosque do Patrício. E há noite é melhor, não há tantas rusgas.
Há, mas são para fechar os bares. São os filhos das putas dos vizinhos que os chamam depois de atirarem sacos de mijo à cabeça dos bêbados filhos das putas que fazem pandega à porta dos bares.
Mas são uns filhos das putas amorosos esses bêbados. São. Compram tabaco. Às vezes cravam um. Não têm dinheiro, coitados. Percebe-se, foi tudo nos copos. Fica a vontade de mais um cigarro para aplacar a serradura lingual que fica no limbo pré-ressaca. E com o cigarro vem a saliva. E com ela o amainar do serrim seco que quebra os lábios e dificulta a fala. Sim. É isso que dificulta a fala. Não é a cerveja, é a lixa.
E com isso, lá dá um cigarro Patrício, para logo vender mais um maço. Um crava hoje é um cliente amanhã, pensa por vezes Patrício. Tirando, claro, os cravas profissionais. Mas esses já os conhece Patrício. São uns filhos das putas esses cravas convictos. Sempre a cravar, sempre a cravar. Filhos das putas é o que são.
Neste vai e vem de bêbados e cravas, lá aparece uma oportunidade. Dessas que acabam a noite excitadas mas sozinhas pela inércia de um qualquer filho da puta que não lhe soube dar a volta, pensa Patrício. E essas, pesca-as todas Patrício. É um filho da puta Patrício. Fecha a portinhola do seu quiosque, abre a braguilha. Todas quiseram. Disso todos têm a certeza. Até Patrício. E elas também, não há dúvida.
Por uma ou outra vez, por falta de melhor, lá foi um crava ao castigo. Fecha a portinhola do quiosque, abre a braguilha. Pronto. Esses cravas por norma não voltam. É uma boa tática, pensa Patrício. Afasta os mosquitos, diz Patrício.
Por cada novo entrante no quiosque, faz Patrício um traço no interior do seu quiosque. Filho da puta o Patrício. Algumas (e alguns) tentaram entrar de novo no seu quiosque afoito, mas Patrício não vai na conversa. Quer novidades, não quer mais do mesmo, o filho da puta.
Os porteiros dos bares da zona já o conhecem de ginjeira. É o Patrício, filho da puta. Não é nada de especial o rapaz, mas deve ter um instrumento de ouro, dizem. Todos o querem.
No final da noite lá fecha Patrício o seu quiosque. Por vezes (muitas) sem faturar. Outras, vai contente Patrício ajeitando as calças à macho. Vai dormir. Há noite tem de estar fresco para a faina.
Sabe Patrício que é um filho da puta. Mas não quer pensar nisso. Está bem como está. É o que é. E sobre isso, nada a fazer.

5.11.2012

Comércio e história inacabada do quiosque vermelho

Existe, há anos, um encerrado quiosque vermelho na praça Montevideu. Caduco, teve o seu auge nos anos sessenta, quando as principais editoras nacionais começaram a debitar literatura diária, à razão de dez por dia.

Tudo era publicável nesses anos de ávida vontade de ler e nessa cidade pretensiosa que agora despertava para a viagem solitária de sofá e em que se lançavam grandes escritores e fracassados incompreendidos.

No quiosque da praça reuniam-se em bancas de dois por dois as novidades livrescas do dia acabadas de chegar do forno tipográfico.

Anos depois, revisitando o seu descascado quiosque vermelho, Egídio lembra o mítico dia 5 de junho de 67 em que lançara o mais retumbante êxito de vendas. Hoje, nesta fria manhã de dezembro em que o varandim entaipado impede a passagem, Egídio é uma sombra vil do tentador de comércio que outrora convencia qualquer pelintra a esbanjar vinte centavos pela mais recente obra de Lucifer, “uma primeira edição de uma obra que valerá fortunas”.

Nesse fantástico dia de vendas, mal chegaram os 50 exemplares da obra que “venderia como ginjas”, logo esgotaram, tendo satisfeito os retardatários com outras obras “de igual ou superior valor e cujo investimento irá ser um dia recompensado”. Desta chusma de livralhada cinzentona fazia parte a obra de Samsa: “Dias assim são para sempre”.

Os 5 exemplares alguma vez vendidos, havia sido Egídio a despachá-las pelo que, neste gélido alvorecer invernal, já esquecido o extenso fracasso da obra, Samsa haveria de cumprimentar, com vigor, a mão de quem lhe tinha dado certo reconforto de eternidade.

Samsa era, com efeito, autor de um calhamaço falhado. Calvo, de trunfas laterais, sobrevivia de biscates de carpintaria que lhe iam aparecendo. Dos seus lábios curtos e cerrados saiam-lhe parcas palavras de chofre, dando-lhe certo ar lunático, assustador de gentes, e que lhe havia impedido qualquer companhia nas primaveras da vida. Não que fosse esquisito com género, etnia ou formato, mas porque, na realidade, as oportunidades não abundavam. Talvez por isso se recalcassem desejos e pensamentos plasmados no seu tom monocórdico, seco, rudimentar de trato.

Metódico e persistente como era, havia retratado, num longo diário de mil volumes, a sua placidez infantil e o seu cinismo adulto, que logo resumiu em trezentas páginas medianas, para publicação. Após várias tentativas de o editar e igual número de rechaços, tanto pela “precaridade linguística” quanto pela “incapacidade de pensamento”, um suficiente elogio de um novato editor abriu-lhe a porta tipográfica.

Na realidade, beneficiou Samsa de uma súbita falta de inspiração universal que o catapultou para a resma de manuscritos da caixa VIÁVEIS, depois de um rastreio mais apurado da arrecadação de fracassos rotulados.

Foi então com grande entusiasmo que viveu esses dias de provas, fotolitos e monos que precederam a ambiciosa edição de 500 exemplares.

No domingo do lançamento, 4 de junho, apesar de não convidar ninguém para o evento, arremessou, inocente, o seu exemplar com todas as suas forças.

Triste sorte a de Samsa, pois no mesmo dia haverá de sair o mais retumbante romance consagrado que escapou à baforada melosa dos ventos da apatia, anunciando a opressão das suas fluentes páginas.

No balanço de final do primeiro dia, barómetro da rapidez de escoamento das obras editadas, 5 únicos exemplares haviam sido vendidos, logo rotulando-se o livro como "falhado", recolhendo-se à editora e logo ali incinerando-se 494 cópias pela invisibilidade da capa e 1.325 papéis de burocracia regimental, justificada pela intransigência da escrita, pela inércia do autor e pela cobertura de custos extraordinários comparticipados pelo autor.

Assim, após anos de insana busca do herói vendedor, com o “quiosque vermelho” como única referência, encontrou, Samsa, o seu querido Elígio,no já decrépito pavilhão carmino da praça Montevideu na recôndita cidade fronteiriça de Concordía.

Recordariam, naquele rossio mal-amado, numa eterna conversa cumplice e desmedida, os anos de sucessos e fracassos, tanto do vendedor de coisas e vontades, quanto do compilador de causas próprias.

8.17.2011

a janela de Melinda

Melinda é um olhar que reflecte, é uma janela de si.

Não é humana, é um espelho à procura do seu reflexo, uma imagem sem modelo, uma fantasia sem forma, uma máscara que espera ser deposta.

Melinda é poesia. Mas não daquela bacoca, rimante, que resulta num tosco sopro de escrita, Melinda é poema grego, é escrita criadora do pensamento e da sublime razão.

É um rabisco singelo de mão treinada, é o minimal outrora elaborado.

Como para todos, também para Melinda a peste emocional lhe tocou, dando corda no mecanismo universal das marionetas que somos.

Liberta-te Melinda, livra-te da peste emocional, diria Reich. Deita-te Melinda, adormece e acorda, eu dar-te-ei vida, diria Chikamatsu.

Espreguiça-se Melinda do seu sono de ilusão e, nessa altura, o calafrio que percorre o corpo à procura do fio vital acorda-a, de rompante.

Num clarão vislumbra a liberdade, tropeça, cai, sorri, levanta-se, corre escada acima para o seu refúgio.

Recua Melinda, tropeça e cai outra vez, depois chora o que tens a chorar, dói, não dói?Agora levanta-te, corre escada acima, recompõe-te e volta a sair. Passa pelas mesmas escadas, poderás tropeçar outra vez. Se assim for, volta a chorar, a subir e depois a sair. A liberdade está na rua, à tua espera e sem ti não será a mesma.

Liberta-te da forma, da ideia, da convenção, da humanidade, da carapaça, do passado, da lembrança.

Liberta-te do presente, paira por entre os comuns, és energia aprisionada. És energia aprisionada...

Melinda flui, sobe as escadas e não tropeça, entra no seu antigo esconderijo e respira. O ar é menos rarefeito, a vida transborda no agora covil de predador.

Uiva agora Melinda, o luar lá fora é teu.

5.03.2009

ossos de um quiosque vivo

- Sinto algo muito estranho, Balu... É como se os meus olhos ardessem. Nunca me tinha acontecido. Estarei doente?

- Não, Mogli. São lágrimas - disse Baguera-. Algo que nós nunca poderemos sentir, só os humanos...

E, deixando rolar aquele fogo dos seus olhos pelas faces, Mogli dirigiu-se à aldeia.

As lágrimas dos homens... as lágrimas dos homens... pensava enquanto debitava mecânico o final da história.

Também aquele fogo havia rolado de meus olhos, anos antes, quando finalmente degolara a culpa atribuída que me pesava a consciência.

Do choro nascera a raiva que, com o tempo, transformara-se em tristeza profunda. Foi-se suavizando até se tornar macia... intocável... indiferente...

Mas o peso da culpa que atribuía por décadas de silêncio incorruptível, avassalador, (in)transposto, matinha-se macerador, remoendo os ossos do quiosque vivo de miudezas que tanto custava a vender.

Tudo mudara quando, num insuspeito dia soalheiro de verão, as abandonadas palavras romperam, trôpegas, pelos lábios moribundos do insano culpado.

"Sinto algo estranho" pensei, no momento em que o fogo rolou pelas faces, em catadupa, tal o peso da libertação.

Tudo mudara! Da indiferença brotaram portuguesices sentimentais. Compaixão e piedade arrumaram o rancor e arrefeceram o fogo...

Mas apagá-lo, libertar das cinzas o quiosque em fogo vivo, não. Talvez o fim das suas miudezas possam aliviar o espaço, dedicando-o ao rescaldo de labaredas acesas noutras frentes.

A ressonância da culpa degolada, de quando em vez, volta, para lembrar que lá está, nunca debelada, sedosa ou indiferente.

Mantém-se enraivecida, mas escondida, pelo intercalar da memória em declínio.

3.10.2009

A improvável história de Dona Ana e sua rija fibra de bem-querer descomposto


“De que fibra és feita?” Havia sido a questão de abertura para a história que agora se conta, de boca em boca, no longínquo Castelo Rodrigo de ontem, da altura do gigante Salomão e sua viagem para lá dos Alpes.

Anos passados desde a última vez em que gentes insalubres da raia tinham apontado o dedo a belzebu em pele de mulher, agora volta o clérigo à carga, para culpar Dona Ana de rija fibra pelo seu bem-querer fértil que puxava homem.

Tudo havia começado pela falta de resposta de Dona Ana em confissão. O puro levita a havia condenado, no sermão periódico, a abraçar a pureza e renegar o pecado.

Dona Ana não havia respondido. Sem pressa, puxou-se para longe da fria abadia, entre olhares acusadores, para nunca mais voltar.

Alvo de amores desalinhados que em brasa punham o povoado, de sumptuosos odores à passagem, Dona Ana de rija fibra levantava ventos tempestuosos de desejo e de intempérie, que regavam a aldeia, mal à janela se punha.

“Vento demoníaco” sussurrava a invejosa gentalha por o mesmo não poder esconder. Ciciavam ao ver a improvável tez morena de sorriso suspenso pelo olhar profundo, que antevia segredos inomináveis e vontades saciadas de soslaio.

Gomo de lânguida tensão pulsante, gemia com seus amores de fortuna, sem receio pelo coscuvilhar que profetizava maleita rogada, botada pela pudica bambochata dominical.

Castas palavras a culpavam pelo único amor verdadeiro da cerca. Pela benquerença de si e do momento, pelo verdadeiro saciar de afectos precisos, pelo autêntico acariciar de si própria, pelo ultraje de brandir a sua liberdade de bicho, de mulher, de gente.

Angelicais orações a condenavam ao ardor do inferno, ao caldeirão tártaro, ao vil desprezo da expulsão, à irada crença de pecado, luxúria, gula e mais outros tantos, dos capitais.

Encantadoras beatas de coração partido pelo tresmalhar de uma alma, a exorcizam com o sotaina. No calor da lareira de casa, gemiam sós, abandonadas pelo acre cheiro mofado que as envolvia enquanto os sagrados consortes roncavam.

Dona Ana e seus anónimos bardanas, incólumes à zelotipia detonadora de ódios, libertam-se da frugal roupagem de preconceitos para se dedicarem à bestialidade, ao desejo, ao gemido, ao amor, deixando no passado a inveja insana do povo.

Escapula-se Dona Ana, do Castelo Rodrigo de má memória, para fazer do incerto sua morada segura, do fortuito forma de vida, da liberdade uma certeza.

Tempos funestos em sítio agreste, esse em que Dona Ana viveu, sem sequer um mísero quiosque seguro como abrigo.

12.23.2008

linda elísia e seus dois quiosques

Elísia de róseos dedos, qual aurora de outros tempos, desponta devagar para mais um derradeiro dia no mar de prisões que a libertam das grilhetas.

Fotografias centenárias chamam por ela, dia após dia, no soturno quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois dos anos idos em saurées e vestidos esvoaçantes, lilases e carmins, de decotes tentadores e olhares de soslaio.

Elísia de tez suave desiste do desabrochar, quer mais um minuto do sonho lindo de madame que insiste em aparecer, dia após dia, no melancólico quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois de décadas de ordens dadas e vontades satisfeitas, de vénias à sua passagem, de salamaleques pela sua presença, de anuências ao seu desejo.

Elísia perfumada de si mesma volta-se no cafre, espalhando o hálito quente do macilento lençol, que dia após dia é sua companhia de solidão, depois de minutos de fama, horas de glória e dias de júbilo pela sua existência, matriarca das gentes, criadora do céu e da terra, glória de todos os tempos, vontade de todos os homens.

Elísia de esguio pescoço, deixa-se cair na almofada granulosa, depois de tempos idos de vã glória, de mandar, de querer e receber.

Acorda linda Elísia! És livre agora - diz para si.

Acordou linda Elísia no seu casebre de vontades, desejos e quereres, no seu quiosque de verdade.
Acordou linda Elísia, livre do estigma e da vontade alheia.
Acordou linda Elísia com seus olhares enigmáticos e aterradores pela possibilidade de ver cá dentro, como nunca ninguém viu em todos os tempos paralelos.
Acordará linda Elísia, uma e outra vez, sem interrupções, livre, radiante e sonhadora. Renovará o acordar de todas as Elísias passadas, presentes e futuras até adormecer finalmente, embalada pelo relojoeiro universal.

10.01.2008

Luz verde para amar, no quiosque de D. Maria

"Luz verde para amar" anunciava o letreiro bamboleante, dando as boas vindas no quiosque de D. Maria.
Poucos havia que se lembravam de aí ter funcionado um mal amanhado cafofo que alentava o cliente sorridente, lânguido e ronronante nas noites da lua monumental.
D. Maria nem sabia sequer da existência desse pardieiro de desamores. Apenas manteve a sibilante ferraria por apreciar a permonição de mau tempo pelo guincho estridente do seu bambolear.
"Aí vem borrasca!" repetia vezes sem conta, sem exalar um som, à matrona tagarela que sempre parava o passo, pelas sete e trinta, antes de picar o ponto no matadouro do fundo da vila.
D. Maria de olhos cansados pelo acumular de rodopios da tabuleta ferrujenta e encavados pelo ar rarefeito que se respirava no mofado quiosque, era mítica (pensava) pela vermelhidão de suas bochechas, luzidias e cerosas, que faziam antever noites bem dormidas de celibato, sem apuros de razões nem mal refreadas pelejas corpo-a-corpo.
Nos infindos anos de solidão, do quiosque vazio fez morada, da casa-maldita-de-congosta lar, do beiral térreo pardieiro, do olhar tristonho máscara de todos os dias, da sua inexistência verdade.
Sonhos houve que a acordaram com suores gélidos pelo vazio de conteúdo. Sem passado nem futuro, sem mercadoria para comerciar, nem perspectiva dos dias depois de amanhã, mantinha uma estranha convivência consigo mesma, ora metralhando longas e profundas conversas com o horizonte, ora ensimesmada nos seus ingénuos olhares focados na mente.
D. Maria É gelo, É vida cortada, É sim e não, vontade sem braços, sexo sem orgasmo, verdade sem mentira, nem sabe sequer o que É.
Existe, claro, mas não deixa memória, de cabelos curtos e silhueta anafada, de sons interiores bem audíveis, olhares esperançosos mas bafientos, ninguém se lembra do timbre, do cheiro do seu hálito, da pronúncia dos seu "ais" ou da memória de seus dentes parcos.
Espera que a vida passe sem demasiada vontade, com vagar. Silencioso sopro de existência quer-se deixar ir para na próxima, de novo, tentar viver, D. Maria de boa memória.
17/05/2008

12.28.2007

sabores perdidos no quiosque quelimane

Nas fraldas do penedo de São João, em terras de demónios escondidos em gente de bem, o encerrado quiosque quelimane subsiste de fantasias e sonhos de volta ao passado de Arménio Jerónimo.
De tez calcinada por aventuras desmedidas e estórias fantásticas, o velho esquecido e solitário tornado à pacatez do berço deixa fugir, às 16.30 de todos os dias, antigas lendas e mitos de feitiços, caçadas e mezinhas que recria, teimosamente, na tasca do zé manel. Revê-se nos antigos sabores agressivos do whisky destilado em baldaria de segunda a que se havia habituado nas longas viagens pela planura dourada da savana sobrevoada.
Retornado do caldo bojudo e arisco nessas lonjuras da áfrica portuguesa, é uma ténue imagem de si: um colono improvável e autoritário que impunha posturas e eliminava sem mágoas todo a escaruma que lhe impedisse o passo.
Revoltado pelo fim do paraíso colonial de que se lembra ter vivido, é hoje um tocador de pífaro na filarmónica de Esbojães, para reviver, ao som da melodia cega, sons e cheiros que nunca mais sentiu, que espera renominar nos segundos finais, quando a vida esvoaçar em daguerriótipos escurecidos diante si.
Revolvido pelo presente impessoal e tacanho da aldeia natal que nunca foi de verdade sua, deixa à banda o bibaque azul, sentindo o que outrora fora o resguardo suado da brasa que por lá se impunha.
Relembrando o odor pestilento e viciante de sangue animal em terra virgem, deixa-se levar pela brisa outonal do fim de tarde silencioso nas montanhas musgo e ouro, quebradas pelo chilrear dos últimos sobreviventes do adormecer de Dezembro. Tenta inspirar o leve hálito que a terra humanizada ainda exala, lembrando a quem a agarra que ainda sobrevive a senhora do lago.
Sobrevive, enlutado e sem garra, teimando nas lembranças que ainda resistem aos lampejos de esquecimento cada vez mais frequentes, fazendo-o desesperar por menos um dia na balbúrdia da civilidade.
Arménio Jerónimo resiste, teimosamente, ao esquecimento lembrando a terra autêntica, original, sem mácula nem cultura que subsiste em fantasia. Lembra a remota áfrica nossa, onde a verdade humana é real, onde a vida circula ao som da natureza e não ao toque de caixa da humanidade. Onde tudo é autêntico, frio, cru, sedento de sanguíneas realidades e alvo de trastes humanos. Onde a natureza funciona, não como por cá, em que aldeias pitorescas, recalcadas de tantas outras, nunca deixarão memória de si. Serão nada, serão vazio, serão uma côdea mal amada, uma terra de ninguém.
Arménio Jerónimo fantasia, interioriza, enlouquece e morre, por dentro e por fora, deixando a saudade voar pelas imagens dos últimos baques.

12.07.2007

do quiosque salamano

O velho parasita deixa-se levar pela revoada intransigente que o conduz estrada abaixo, para os confins da aldeia obscura em que habita há setenta e tal anos.

Periclitante, arrasta-se entre pedras talhadas ao acaso da marreta, que limitam a congosta húmida e fria, calçada com granito persistente e escorregadio pelo uso.

O frio aperta, gela o nariz enquanto o bafo não o conforta. Deixa um leve ardor no respirar e deixa exalar um hálito fumegante que rápido se dissipa na folhagem despenteada que surge, mal Remoinhos termina.

O velho estafermo continua sem rumo na bruma que se põe e que o impede de ver o destino. Décadas depois de ter sido parido nessas paragens, "no mato, por entre feras e demónios", como tinha ouvido vezes sem conta a sua parideira ressentida, caminha para a morte, depois de atazanar a aldeia com as suas devassidões de mastro à mostra e de fornicações animalescas.

“Puta que pariu o velho!” Era a frase que andava de boca em boca nos últimos 15 anos, desde que caiu da cadeira em que se apoiava para aviar a égua. Desde lá, só o cajado lhe permite deambular, sem rumo e sem amor, pelas ruelas frígidas desse asilo de velhos que esperam a morte, na serra vazia.

“Que o diabo o carregue para de onde veio”, ouviu sair do quiosque Salamano, antes de se perder no caralho do nevoeiro.

“Que o diabo vos carregue comigo, cabrões lambe-cus!” disse nostálgico antes de se perder no manto branco.